31 agosto, 2004
Meu bairro
As ruas de meu bairro como tantas outras, são caminhos que levam e trazem pessoas no cotidiano da vida. No entanto, olhando bem, a paisagem e os elementos agregados a essas ruas retratam sutilmente o caráter e a personalidade de quem mora aí. Talvez eu também me identifique com elas. Vamos ver. Originalmente o bairro foi habitado por alemães, italianos e poloneses. O tipo físico é do mais diverso porém perfeitamente identificável. A maioria possui a pele clara e uma característica curiosa, os homens primam pela roupa bem passada e as mulheres com visual caprichado e cabelos bem tratados. As pessoas, enquanto se cruzarem, usam um código de aproximação: a cabeça se altiva, e o olhar como um scanner, vai digitalizando e definindo o quanto se querem cumprimentar. No momento ideal murmuram um "bom dia", um "olá", um leve sorriso, o que faz as duas partes sentirem civilizadadas suficientes para conviver como bons vizinhos. Se houver um diálogo, normalmente começa com, "o senhor mora aqui nas redondezas?". E assim vai se levando mesmo estas ações sendo previsíveis, mas eu gosto e me faz pensar quem foi mesmo que disse o homem ser um animal social?
Continuação 01.09.04 ...
Feliz sorte tiveram os moradores da rua Polônia onde os Jacarandás trespasssam a via pública fornando uma alameda com frondosas árvores. Neste início de primavera, as flores despencam em abundância caindo sobre as pedras do pavimento transformando tudo num tapete de cor lilás. Nas primeiras horas da manhã, travesseiros e cobertas descansam nas janelas dos prédios, na tentativa de receber os poucos raios de sol que o inverno ainda insiste em esconder. Um cheiro de café passado na hora permanece no ar. Alguns distribuidores de gás, de água e de verduras começam a circular e uma sensação de "lar doce lar" revigora a vontade de trabalhar.
Continuação 02.09.04 ...
O que mais chama a atenção no bairro é a diversidade de bares e restaurantes. Duvido que exista outro lugar com tamanha concentração. Cada um com sua especialidade e nomes sugestivos: galeterias: (Primo Pollastro); churrascarias (Boi que Berra); frutos do mar (Arrastão); rodízio de massas (Mamma Mia); carne de caça (Javalí na Brasa); sopa de miúdos (O Rei do Mocotó); cozinha alemã (Baumbach); casa de chopp (A Taberna); cozinha uruguaia (La Parrilla); casa de pasto (Do Schneider) e mais dezenas de outros, incontáveis. E tem o turco (o libanes) que todo dia coloca na porta de sua quitanda um enorme cartaz sempre com uma crítica ou elogio. A de hoje: "Não vote em ladrão, mesmo que ele faça"
Continuação 03.09.04 ...
Assim como existem os Koslowski, os Dal'Sotto e os Krämmer, outros como o serralheiro Catarino, fez de sua imaginação um automóvel no fundo do quintal. De peça em peça foi armando a estrutura colocando os pneus, o motor e finalmente pronto resolveu dar seu primeiro passeio. Corre a história que até hoje, mesmo depois de morto, nunca ninguém conseguiu botar o carro na rua por ele ter dimensões tão grandes que teriam de demolir metade da casa. Meu bairro também serviu de cenário para um projeto cinematográfico com o roteiro do filme "O Homem Que Copiava", ganhador de prêmio no Festival do Cinema em Gramado. Não caberia espaço neste blog para colocar tantas mais histórias pitorescas a serem contadas. Vez que outra, se eu me lembrar de mais uma irei relatar em outro post.
28 agosto, 2004
Ornitologia II
Post editado em: 25/03/2004
Neste verão os sabiás cantaram menos. Será que foram contaminados por influenza da recessão?
Post editado hoje: 28/08/2004
Passada a temporada hibernal da gripe, ao cruzar pela harborizada praça, observo as sabiás gordas, faceiras e prenhas de ovos. Estão preocupadas em se alimentar para serem boas chocadeiras. Nem notam meu caminhar, compartilhando a mesma calçada. Parece que a primavera desfaz os maus humores. A confiança na vida se renova.
27 agosto, 2004
Sobressaltos
Sabe quando a gente recebe um susto por alguma coisa que logo depois se esvanece ao descobrir que aquilo não tinha nenhum valor? Mas a adrenalina não se dissipa da mesma forma como foi criada e assim me senti tenso hoje depois do almoço. Imagino o que ocorreu com o Franz Kafka naquela tarde "quando bateram na sua porta e se apresentou um homem que nunca tinha visto antes, com uma intimação judicial para assinar e declarando-o réu, iniciando assim um processo interminável". No meu caso, assaltado todos os dias por 43% de carga tributária, ainda meio sonolento quando aquele homem de preto apareceu de papel na mão, perguntou-me se tinha algum animal de estimação, pois caso positivo estaria oferecendo serviços de saúde, tosa e banho. Desfeito o temor de algum fato imprevisto, depois de digerir a proposta, só me restou lhe devolver um sonoro não. Tenho lido de relance, nas bancas de revistas, como matérias de capa, que está grassando uma síndrome do pânico. Acho que da próxima vez que minha turma de formandos, do tempo do exército, me convidar novamente para um jantar junto às baias da cavalariça, desta vez eu vou aceitar. E se depois, na hora da cantoria, se tiver de relinchar como os outros fazem depois de alguns goles de vinho, também o farei para ver se isso me ajude como terapia. Que tal. Talvez alguém me arrume uma solução melhor. Afeto também resolve.
25 agosto, 2004
da série: "Gostei mais" VIII
Desabafo de Herbert Vianna
VAIDADE
"Cantor do L.S. Jack é internado em coma no Rio após lipoaspiração."
É possível isso? É admissível isso? Um rapaz de 27 anos ter uma parada cardíaca e entrar em coma após uma cirurgia de lipoaspiração? Pelo amor de Deus, eu não quero usar nada nem ninguém, nem falar do que não sei, nem procurar culpados, nem acusar ou apontar pessoas, mas ninguém está percebendo que toda essa busca insana pela estética ideal é muito menos lipo-as e muito mais piração? Uma coisa é saúde outra é obsessão. O mundo pirou, enlouqueceu. Hoje, Deus é a auto imagem; religião, é dieta; fé, só na estética; ritual é malhação: Amor é cafona, sinceridade é careta, pudor é ridículo, sentimento é bobagem; gordura é pecado mortal; ruga é contravenção; roubar pode, envelhecer não; estria é caso de polícia; celulite é falta de educação; filho da puta bem sucedido é exemplo de sucesso. A máxima moderna é uma só: pagando bem, que mal tem? A sociedade consumidora, a que tem dinheiro, a que produz, não pensa em mais nada além da imagem, imagem, imagem. Imagem, estética, medidas, beleza. Nada mais importa. Não importam os sentimentos, não importa a cultura, sabedoria, o relacionamento, a amizade, a ajuda, nada mais importa. Não importa o outro, o à volta, o coletivo. Jovens não tem mais fé, nem idealismo, nem posição política. Adultos perdem o senso em busca da juventude fabricada. Ok, eu também quero me sentir bem, quero caber nas roupas, quero ficar legal, quero caminhar, correr, viver muito, ter uma aparência legal mas... uma sociedade de adolescentes anoréxicas e bulímicas, de jovens lipoaspirados, turbinados, aos vinte anos não é natural. Não é, não pode ser. Deus permita que ele volte do coma sem seqüelas. Que as pessoas discutam o assunto. Que alguém acorde. Que o mundo mude. Que eu me acalme. Que o amor sobreviva.
"Cuide bem do seu amor, seja quem for".
23 agosto, 2004
Miscelânea
As notícias que correm, são boas: A Daiane conquistou o quinto lugar. A Petrobrás está agüentando o preço da gasolina no "osso do peito". Meu candidato continua na frente. O inverno já está passando. Recebi um e-mail de alguém que pensava ter me esquecido. Minha pitangueira floresceu de uma vez por toda. E o presidente da Coréia do Norte chamou o Bush de imbecil. Afora o que não me lembro, para ser feliz por um momento, pouca coisa me basta.
22 agosto, 2004
Enquanto aguardo notícias suas
. . . e pressentindo que procurava ao meu redor o que era seu, igual um bicho voraz, lembrei-me do último ataque, minutos antes, em que arrancou as minhas camadas de verniz e tocou a minha trêmula nudez.
Quieto, à medida que escutava o rumor da vida vindo de suas narinas, revi cena por cena o enredo de nossas mil e uma noites, cada uma com o seu aroma de perdas, cada uma com sua aura de conquistas, e os minutos todos que eram tão plenos quando a eles nos entregávamos, tangendo nossas diferenças, felizes por descobrir que aprender a viver é que era mesmo o viver.
Logo me lembrei, como o gosto de fome, dos tempos em que minha lenha acendia a sua fala, enquanto o linho de sua língua em meu falo me apagava os gritos de desejo -e refiz na memória a correnteza que eu era, me fluindo em sua boca, e a sede que você jorrava, me bebendo gota a gota, me sugando como o tempo suga um lenho ao relento, como a flor sorve o néctar da abelha, sem nenhum zumbido. . .
De João Anzanello Carrascoza. É autor do livro de contos "Duas Tardes", entre outros.
21 agosto, 2004
Cena rupestre
Certa vez, no avarandado de um restaurante no alto de um barranco do rio Cuiabá junto a cidade, estava justamente degustando uma porção de peixinhos fritos os quais eram servidos de aperitivo antes do almoço. Observava lá em baixo na outra margem, as lavadeiras num grande alvoroço, lavando roupas e as sovando nas pedras à beira do rio. Na volta delas, como filhotes, fervilhavam crianças, a maioria nuas a se refrescar tomando banho e nadando em rápidos percursos voltando logo para junto das mães. Mesmo de longe, me ofuscava a alvura dos lençois como pequenos pontos brancos postos a quarar no sol. A morena cor de jambo que me acompanhava, fazia parte desse pitoresco quadro. Comentei daqueles tantos lençois que já serviram para arrebatadas noites de amor. Percebi seu sorriso e os olhos ingênuos não desgrudavam de mim. Mal sabia que um dia iria escrever algumas linhas sobre esta cena. O que estaria pensando? Seria também sobre o mesmo assunto que as lavadeiras tanto matraqueavam? No que concernia a ela, isto eu fui descobrir depois.
Comments: beaugeste@estadao.com.br18 agosto, 2004
Chuva
Quando começam cair aquelas gotinhas lá do céu, parece que verte una lacrima di commozione na parede do meu vidrinho de "Colírio Plus".
Assunto de índio
Um amigo meu andava triste, melancólico, abatido. Fi-lo ver que o mundo não era só feito de tragédias e tristezas. Tentei reanimá-lo dizendo que não deixasse "a peteca cair". Depois, sozinho, comecei a refletir se havia encontrado o termo correto. Descobri que a peteca já era usada pela grande nação Tupí, em jogos de aldeia. Imediatamente peguei o telefone e disquei para que entrasse em contato com seu credor e informasse de forma lúdica, que se a peteca cair, ele iria usar seu tacape, ou melhor, dar uma tacada política repassando a peteca para outros índios dessa nação de colonizadores medíocres (lembrei do filme "O Piano" que se passava lá na Polinésia). Ouvi dele uma risada tímida, mas já foi um bom começo.
Comments: beaugeste@estadao.com.br17 agosto, 2004
Musical
Acordei com um som nos meus ouvidos que só se desfez depois do banho. Quando sintonizei melhor, pude identificar o tema principal do musical de Evita: "Don't Cry For Me Argentina". Claro, só podia ser ela pois o Phil está na primeira fila dos violoncelos fazendo sua parte neste musical montado aqui em Porto Alegre. Tem mais de oitenta figurantes entre orquestra, corpo de baile, coral adulto, infantil, cantores e recitalistas. Já contei que estive no último ensaio. Realmente emocionante. Ele voltou exultante ontem a noite pois a estréia foi um sucesso. Disse-me que é possível que façam uma tournée por todo o Brasil.
Comments: beaugeste@estadao.com.br15 agosto, 2004
da série: "Gostei mais" VII
(Este texto me foi enviado por e-mail e publicado nas palavras originais do remetente. Se você tem algo autêntico para contar, peço que encoraje e envie. Irei ler e interpretar. E num impulso se me permitir suspirar, irei publicá-lo. O importante é o conteúdo por mais singelo que seja e o estilo que retrata a alma do autor. É meu convite à editar. Liberte-se. Dê asas a sua imaginação. Tente voar...)
Falando de Amor. Tem dias na vida da gente que o sol não nasce, pra poder ficar nessa paisagem cinza, molhada da chuva que cai lá de cima e assim só me sobra mesmo uma vontade enorme de me espichar na cama e pensar nessa minha vida.
Chuva sempre me deixa sentindo um grande aconchego dentro da minha casa e me encolho dentro da malha de lã enquanto olho para o morro de pedra brilhante na janela. Parece que a água o banha e traz vida aos poucos ramos verdes que brotam aqui e ali nas entranhas da rocha.
Olho para aquilo e me dou conta do quanto a natureza é magnífica, forte e imperiosa em si mesma e acabo me deixando levar pelas forças do meu coração, pronto para reviver o amor em cada chuva de lágrimas que lava minh'alma.
Ah... esse amor que vive pairando entre nuvens, que se espalha com o vento e sussurra como brisa na minha fronte trazendo a sensação de renovação. Ele chega de mansinho, sem que ninguém o reconheça, se esgueira da minha racionalidade em detectá-lo, se afoga em meu peito e se trancafia lá no lado direito, quieto e sibilante à espera de não sei o que o faça emergir como um vulcão em erupção.
Que amor é esse que surge na minha vida e me faz encantada com a vida à minha volta, que me faz revirar horas e horas a esperar e me traz lágrimas de pura emoção ao partilhar um simples encontro num olhar? Que amor é esse que me deixa agastada por uma palavra, me transtorna o íntimo de desejo e me traz calmaria num abraço?
Desse amor eu não sei, só sinto que ele me ronda noite e dia, me deixa forte e fraca, me dá e tira o sossego, me atormenta o espírito e me dá a certeza de que ele existe dentro de mim, apesar de todas as razões existentes e contraditórias.
Parei de tentar "entender" com que fim amei e amo. Já notei que ele só vai embora quando chega sua hora de dizer adeus, já percebi que ele tem lá sua missão nessa minha vida. Talvez ele entre e saia a cada verão e eu viva no outono a colher os frutos que ele me fez amadurecer, plante flores na primavera´buscando cultivar a esperança da renovação e entre dentro de mim a cada inverno para sentir sua ausência.
O amor tem lá suas esquisitices, suas meiguices e mesmo sendo algo do qual a gente fique à deriva, sem leme ao sabor do seu próprio movimento e tempo, ele é talvez a maior força que existe dentro de cada um de nós. É a seiva da vida que brota inconseqüente a qualquer hora e nos faz renascer e renovar nossas crenças.
Valeu amor, valeu por tudo que você vem me dando ao longo dessa vida.
M.F. - Rio de Janeiro, RJ
14 agosto, 2004
Frases soltas
Olha só o que eu li e ouvi do carinha aquele: 'Em lugar que só tem mulher de cabelo comprido, pode reparar, o som é ruim'.
Sobre a Nádia (da padaria): 'As minas não me levam a sério. (...) se a negrinha da padaria quiser, caso com ela'.
Da Irene: 'Ela abriu as pernas e tinha 27 anos, estrias, celulites e tudo o que faz uma mulher de verdade parecer 'de copas'.
E tem a Lisa: 'Ou Lis como chamo. Cearense, médica pediatra e casada com um alemão chamado Günter; tá pedindo pra ser adúltera'.
'Cartas de amor, respondidas ou não, são as mesmas cartas e têm os mesmos destinatários, é tolice relegá-las ao desprezo e ao alheamento, e não respondê-las'.
E eu complemento: 'Na hora da transa, mulher de cabelo curto é boa pra pegar na cabeça e tirar um som'.
13 agosto, 2004
Minha rotina
07:30 A alvorada
Ao despertar, sentado na beira da cama, procurava calçar as meias. Verifiquei todas elas já velhas, desfiadas. Pensei: nunca vi na minha vida um amigo ou parente ir na loja comprar meias para si mesmo. Dessa maneira concluí: deveríamos comemorar aniversário mais vezes durante o ano para preencher esta falha no estoque.
08:00 No barbear
No banheiro, terminando de aparar a barba, não me lembrava mais dos vários tchans que efetuei com a lâmina de barbear. A cada um deles, me vem uma idéia diferente, normalmente engraçada. Acho que foi no quarto tchan que virei o rosto para a janela e vi a azaléia em flor. Bonitona! Ninguém acreditava que ela iria vingar.
10:30 No telefone
"Alô? Quem fala?" (irrompeu pelo fio do telefone sem se identificar; pensei em dizer, "claro é você mesma quem está falando")
Tomei um ar e respondi:
"É o Beau, pode falar".
"Só um momento"... (pausa de 20 segundos)
"Alô, aqui é o Luiz, tudo bem senhor? Constatei alguma dúvida aqui nos papéis enviados para a contabilidade." (ah, era o contador; minhas pulsações voltaram ao normal)
"Seu Luiz, poderia avisar a secretária da outra vez se identificar? Assim, de susto em susto, ainda vais me perder como cliente. E eu que pensava em ir no coquetel do jubileu de ouro de seu escritório."
15:40 No hospital
Liguei para o hospital a saber como passava alguém de minha amizade. Resposta: o médico a enviou para casa, pois além de não querer se responsabilizar com os procedimentos da cirurgia, achava que o plano de saúde não cobria o tanto quanto ele queria ganhar. Que mão canguinha que ele tem, né.
13:50 A concórdia
Assim como eu, o povo criou uma estigma quanto aos advogados. Formou-se a imagem que a maioria deles trabalha para o sistema financeiro ou do outro lado a favor dos simples mortais. Voltei há pouco de um desses escritórios de cobrança travestidos de "consultoria jurídica" onde fui pagar uma parcela de uma ação revisional de um contrato. Nesta ação, o juiz homologou um acordo que reduziu o valor do contrato (restante a pagar) em 75%. Hoje me segredou um desses "nobres tribunos" que só 30% dos brasileiros ingressam com ações revisionais. O resto é quem patrocina os lucros dos bancos.
15:40 No correio
Será só porque é sexta feira 13 que não chegou minha encomenda? Tão esperada? Na agência dos correios "ninguém sabe, ninguém viu". Falei com o gerente Raimundo, um cearenses socado, muito meu amigo, um tipo nordestino dos poucos que se vê por aqui. Ele também me disse: "sei não, sei não". Fiquei contagiado. Saí da agência resmungando: "e o que sei eu? e o que sei eu"?
18:40 No ensaio
O maestro não tinha pior lugar para reunir a orquestra e ensaiar o musical "Evita". Levei de carro o Phil, e custamos a achar o endereço. Num teatro reduzido, não sei como ele conseguiu colocar tantos músicos, coristas, bailarinas, e cantores de todo tipo de voz. A primeira parte do ensaio ainda animava. Mas as constantes repetições das partes foi que me deu um fastio de só pensar num sofá macio e uma TV ligada. Chegamos agora 23:00. Loucos de fome. Se foi minha "baga-sexta". Se foi.
12 agosto, 2004
Declaração simplificada
Com mais de ano de negociação, viu-se a inpossibilidade de se efetuor a proposta abaixo. Mas achei original e pegou na canela a maneira sincera e natural de dizer as coisas. Acordados desta impossibilidade, concluimos que é feliz quem pode rir de si mesmo. Com concordância da autora, transcrevo essas palavras esperançosas, que de certa forma todos nós, uma vez - no mínimo -, já tivemos na vida:
Olha, se tu demorar muito pra vir ficar comigo, sei nãooooo..... Casa comigo, casa?? Eu te faria o homem mais feliz desse mundo!!!!! Seria BOA de cama, mesa, banho, área de serviço, sala, cozinha, quarto, banheiro, motel (esse seria pros vareios), lugarezinhos inóspitos, praia, campo, tudu, tudu, tudinhu..... ahhhh, tbm sei lavar, passar, cozinhar, cerzir, costurar, tricotar, crochetar e bordar. Sei decorar a casa para festas, mantenho ela aconchegante durante o anos todo. Resumindo, sou "uma lady na mesa, uma louca na cama, na maior safadeza, eu digo que te amo..." Sou também razoavelmente culta (vc não passaria vergonha comigo), sei me vestir e me comportar de acordo com o que a ocasião exige e acho q não sou assim tão feia. Falando nisso, tenho q te mandar uma foto melhorada minha, né? Marcada de batom. ENTÃO?????? Tá esperando o quê?
Por motivos óbvios a assinatura é omitida.
11 agosto, 2004
Naquela tarde
Naquela tarde de domingo, num verão causticante, na pequena cidade do interior, fui me socorrer na sorveteria defronte à praça principal. Observava o movimento dos jovens. Um grupo em pé na sombra das árvores, outros sentados nos bancos e mais outros na mureta que circundava o jardim. Nenhum vento, nenhuma brisa, uma aparente cena letárgica. Alguns carros iam e vinham substituindo o footing de antigamente. E assim aparentava passar a vida daquela pacata gente. De repente, uma potente caixa de som transformou aquele ambiente. Despejava um rock pesado e entre uma música e outra encaminhava mensagens solicitadas pelos namorados e os demais. Anotei algumas delas: "Camininha diz ao seu Leãozinho que sabe como matar sua fome"; "Laurita envia uma chave de pernas para o seu amigo de Kung Fu"; "Gisele diz (suspirando): como foi bom me encontrar contigo no meio do milharal". Aparências. Sempre as aparências.
10 agosto, 2004
Tá feito!
Extrato de email recebido...
"Agadecendo ao teu convite, tenho dificuldade de me comunicar com pessoas que não conheço. Na verdade, penso que eu não levo jeito para dizer coisas interessantes. As vezes acho que digo "água" e as pessoas entendem "fogo". As vezes sinto que me vês atrás das palavras, em cada vírgula, em cada suspiro. Por momentos acho que não me compreendes, então, imagine as outras pessoas. Ficamos assim. Se um dia eu tiver coragem para ver minhas palavras em ambiente comum eu te falo e tu me editas."
Por obviedade, não tem assinatura.
da série: Gostei mais" VI
(Este texto me foi enviado por e-mail e publicado nas palavras originais do remetente. Se você tem algo autêntico para contar, peço que se encoraje e envie. Irei ler e interpretar. E se num impulso me permitir suspirar, irei publicá-lo. O importante é o conteúdo por mais singelo que seja e o estilo que retrata a alma do autor. É meu convite à editar. Liberte-se. Dê asas a sua imaginação. Tente voar...)
E esta paisagem... águas serenas do rio.
Sol quente, o vento manso. A calma, a paz ...
Por dentro, meu coração em tumulto...
Com vontade de gritar: Odeio-te, odeio-te .... AMO-TE!
A noite, ah! a noite...
Vem escurecer a terra e maravilhar o mundo com seus pontinhos luminosos.
Queria ser uma estrela ...
A noite faz-nos sonhar, pensar versos de amor...
A noite alegre .... fumaça, música, cabelos longos, calças justas
Beijos, abraços, carícias mil.
Vem um whisky? Cuba, Campari, Minister e outros modos
De esquecer as tristezas da vida.
A luz... amanheceu, apagou a euforia da noite alegre...
Ônibus, despertador. O café está pronto?
Torradas, depois máquinas, ventilação artificial,
Telefones, emitindo vozes artificiais, luz artificial...
Móveis duros, fórmica.
Crânios que somam e diminuem num simples apertar de botões.
Livros, guias, folhas e até eu artificial.
Perucas, seios, unhas, tudo artificial. Amizades artificiais.
Nem se sabe que é ou o que não é.
O relógio marca o tempo implacável.
O espaço entre a vida e a morte é curto.
O disco a tocar uma música excitante, infernal.
Do outro lado, a música fúnebre.
Sons de guitarras, pianos, baterias que entram na cabeça.
Guarda a apitar, buzinas a tocar...
Pronto!
Fechou o sinal...
M.G. - Porto Alegre, RS
09 agosto, 2004
Nunca pude exatamente compreender o que acontece dentro de mim quando alguém anuncia que vai viajar, tomar férias, visitar parentes, enfim, passar um tempo longe do afeto ao qual eu dediquei. Parece que funciono como um puzzle, joguinho de combinar peças de armar. Parece que quando estou por terminar aquela bonita paisagem, justamente a peça principal é a que está faltando. Tá. Esqueçam a comparação, esqueçam. Sou mesmo é egocêntrico. É isso que sou. Pronto.ponto.com.
08 agosto, 2004
Passeando, divagando...
Todos anos eu aguardo e é o que se repete. Aquele frio de inverno que acolhe e dá o conforto numa manhã de sol. Foi assim neste domingo, Dia dos Pais quando subi a serra e lá em cima fiz o tradicional churrasco com a minha turma. O lugar possui pequenas cabanas de duas paredes somente, onde da parte aberta se tem uma vista exuberante da mata virgem junto a estrada sinuosa e ajardinada que leva à Gramado. Existem churrasqueiras individuais e uma mesa. Perfeito para uma confraternização familiar. Na noite de sábado havia nevado e hoje pela manhã fazia um frio seco, que pinicava a pele das mãos se ficassem expostas ao tempo. Elas eram guardadas nos bolsos das jaquetas e casacos o que não acontecia com o Huberto e sua namorada, preferindo escondê-las em recantos mais agradáveis. Uma mantinha abrigava o pescoço, eventualmente recobrindo o rosto dos mais exagerados. Fato comum e corriqueiro - desculpem meu orgulho - é que mais uma vez acertei em cheio o ponto do assado. De sobremesa, chocolate da terrinha mesmo. Depois mais tarde, na volta, costumo fazer um roteiro sempre diferente. Desta vez, por caminhos que percorrem o interior da colônia alemã, onde se viam laranjeiras e bergamoteiras recobertas por pontos amarelos parecendo fartura desperdiçada de tanto que eram carregadas de frutas. Dizem e eu confirmo: depois de uma geada, depois de muito frio, as frutas de inverno aprontam com mais douçura principalmente quando espremidas pelas mãos e chupadas pela boca.
07 agosto, 2004
da série: "Gostei mais" V
(Este texto me foi enviado por e-mail e publicado nas palavras originais do remetente. Se você tem algo autêntico para contar, peço que se encoraje e envie. Irei ler e interpretar. E se num impulso me permitir suspirar, irei publicá-lo. O importante é o conteúdo por mais singelo que seja e o estilo que retrata a alma do autor. É meu convite à editar. Liberte-se. Dê asas a sua imaginação. Tente voar...)
Roupas no varal combinam com quintal. Duvida? As casas simples deixam à mostra aos curiosos da rua, varais repletos de informações sobre pessoas e costumes, emprestam uma intimidade a quem os vê. Até o gato fica atraído pelo balançar do lençol ao vento, acompanha atentamente cada movimento com os olhos, tenta pegar, parece ter medo...
Tenho uma aquarela que é um quintal na neve, onde o varal estende panos coloridos em vermelho e azul bem fortes. Foi pintado pela Françoise e a mim presenteado no Natal de 2000. Sabe como ela faz estes trabalhos? Sempre que viaja lá pela França, ela tira fotos digitais de cenas domésticas, e reproduz as que mais gosta em aquarela... é boa nisso!
Por alguns anos acompanhei um curioso varal, único pela assiduidade e perfeição, pois todas às segundas-feiras ao chegar ao trabalho, já notava pela janela dos fundos o tal varal lá no piso térreo do outro prédio, montado como um estandarte, ostentando toda aquela parafernália com o orgulho de um destaque de escola de samba. Era cartesiano, havia exatidão na seqüência das cores, nas espécies e disposições das peças. Havia o grupo dos lençóis, das toalhas de banho, das toalhas de rosto, dos moletons, dos pijamas, dos shorts, camisetas das Pês das Êmes e das Gês, dos tapetes de algodão. Todas as meias eram aos pares uniformemente dispostos, e tudo numa graduação de cores dos mais escuros ao mais claros. Não podia me conte e chamava os amigos, ficávamos tecendo toda sorte de comentários, riamos muito... se for uma mulher é metódica ao extremo, rigorosa com a limpeza, organizada ao máximo, além de trabalhar para um bando de vagabundos que pareciam escravizá-la, rsrssrs... mas se for um homem, bem aí rolava um frison.. ahh...só pode ser gay... um homem não é tão detalhista com trabalhos deste tipo, e quanto mais olhávamos mais detalhes podíamos observar... inclusive na janela havia vasinhos de violetas... onde se podia observar o mesmo nível de detalhe, ou como dizíamos, o mesmo grau de frescura. Rsrsrsrrrss.
Ahhh os varais e os vendavais... um não existe sem o outro. A escala Beaufort (RSRSRSRSRSRS....) classifica o efeito natural que os ventos causam nas coisas...
O fragmento de texto abaixo não sei bem quem escreveu, apenas replico:
"Nas agruras da vida suburbana encontrei um porquê para minha existência. A calcinha da minha vizinha no varal. Ela não sabia. Mas todo dia quando ela saía para o trabalho e deixava as roupas no varal nos fundos de sua casa de madeira, eu, um desempregado, um inútil, um vagabundo, ficava ali, a observar sua calcinha. Um dia era branquinha, alvinha, límpida. No outro dia tinha desenhos com florzinhas e isso me deixava excitado. Um dia ela pendurou uma calcinha azul brilhante. Isso me deixou realmente puto. Calcinha azul! Brilhante! Saí de casa louco da vida..... .......... ".
L.P. - São Paulo, SP
06 agosto, 2004
No trânsito
Na rua, estonteante, feito boba, foi se esgueirando, se arrastando, deslizando entre o vácuo dos automoveis. Usaram-na. Abusaram-na. Depois a atiraram no mundo fazendo companhia aos cães, aos vagabundos catadores de lixo. Nunca imaginei tanto desprezo. Foi quando eu a vi. Porém já era tarde. Não consegui mais desviar a direção do meu carro. Escutei a batida, o golpe seco e senti ela se dilacerando sob as rodas enquanto eu passava por cima daquela maldita garrafa pet.
05 agosto, 2004
Curiosa sensação
Estava eu na fila do banco observando o trabalho de pessoas fazendo o serviço de limpeza. Reparei que pelo adiantado da hora, na falta do serviço de rotina o gerente deve ter contratado novas faxineiras. Além de estarem uniformizadas em trajes que mais lembravam aquelas copeiras francesas do século XVIII, haviam duas que ostentavam o espanador multicolorido feito de magníficas e "autênticas" penas de avestruzes africanos. Enquanto trabalhavam, também pelo rabo dos olhos espreitavam os clientes e as vezes deixavam escapar um comunicativo sorriso. Parecia algo ensaiado, pois aquele movimento constante e repetitivo dos espanadores retirando a poeira de um lugar e a colocando no outro, me fez ficar em estado hipnótico e mesmo em pé, levitava num profundo relaxamento. Gostei de pensar que elas teriam também espanado meus maus pensamentos. Sendo assim, em quem será que eles foram pousar?
04 agosto, 2004
da série: "Gostei mais" IV
(Este texto me foi enviado por e-mail e publicado nas palavras originais do remetente. Se você tem algo autêntico para contar, peço que encoraje e envie. Irei ler e interpretar. E num impulso se me permitir suspirar, irei publicá-lo. O importante é o conteúdo por mais singelo que seja e o estilo que retrata a alma do autor. É meu convite à editar. Liberte-se. Dê asas a sua imaginação. Tente voar...)

(Meu relato, nada mais é do que, de alguma forma, "despertar" e "ver" o quão belo é nossa natureza....)
A vida passa sem que nos detenhamos em particularidades...
Sentada na garagem com vista para o pátio, fazendo companhia à minha mãe, vimos um beija flor se deliciando com o néctar de uma flor de boldo na casa vizinha. Permanecemos por muito tempo nos deliciando com a visão. Tive uma idéia! Comprei, no mercado central, um dispositivo simples para atrair o pássaro que nos encantava. Hoje é nosso companheiro inseparável. Ver tal perfeição da natureza, sua sutileza, seu encanto por um objeto decorado que continha o alimento de seu prazer, nos proporciona belas horas de entretenimento, de reflexão e de carinho.
Num domingo, apareceu minha tia a nos visitar. Vendo o que observávamos, começou a refletir e nos contou uma história de um vizinho, também dependente físico, que lhe havia contado que observava diariamente um certo pássaro que pousava num fio telefônico e dele descrevia maravilhas.
Ela simplesmente nos disse: "Nunca tive, ou me dei o tempo para observar isso. Hoje é um dia especial para mim".
Além do fato do reencontro das irmãs, havia algo novo. Disse-me, que a partir daquele dia, estaria mais atenta e tentaria ver a simplicidade, a complexidade do que emana da natureza.
Simplicidade, encanto, maravilhas...o quanto perdemos pela nossa pressa. Uma vez por termos um compromisso, outra vez pela pressa de viver. Tudo isso nos delimita o prazer de desfrutar coisas simples que estão a nossa frente e não temos "tempo" para admirar.
C.S. - Pelotas, RS
03 agosto, 2004
A respeito de...
Tenho recebido simpatia pela proposta do convite a editar. Fico comovido pela confiança em mim depositada ao receber um primeiro texto. Vou editar todos, por mais singelo que seja. Por mais sagaz na intenção. Enfim por todos, no intuito de oportunizar e conhecer pouquinho mais a alma e o espírito de cada amizade por mim conquistada. Então... vamos parar de tergiversar (crédo, só achei esta palavra no Houaiss) e iniciar de uma vez?
01 agosto, 2004
Convite para editar
Como já tem acontecido, fui tomado novamente pela mesma idéia, uma solução para você que tem algo a dizer, algo original para contar, uma mensagens para enviar, mas os textos estão guardados no fundo da gaveta ou no fundo do baú.
Uma vez que se encoraje e me envie, irei ler, irei interpretar. E num impulso, se você me permitir suspirar profundamente, irei publicar na série: "Gostei mais".
No final, os créditos. Ou seja, as iniciais de seu nome.
Sugestões e comentários serão muito bem vindos. Então, vamos editar?

