13 agosto, 2004

 

Minha rotina

07:30  A alvorada
Ao despertar, sentado na beira da cama, procurava calçar as meias. Verifiquei todas elas já velhas, desfiadas. Pensei: nunca vi na minha vida um amigo ou parente ir na loja comprar meias para si mesmo. Dessa maneira concluí: deveríamos comemorar aniversário mais vezes durante o ano para preencher esta falha no estoque.

08:00  No barbear
No banheiro, terminando de aparar a barba, não me lembrava mais dos vários tchans que efetuei com a lâmina de barbear. A cada um deles, me vem uma idéia diferente, normalmente engraçada. Acho que foi no quarto tchan que virei o rosto para a janela e vi a azaléia em flor. Bonitona! Ninguém acreditava que ela iria vingar.

10:30  No telefone
"Alô? Quem fala?" (irrompeu pelo fio do telefone sem se identificar; pensei em dizer, "claro é você mesma quem está falando")
Tomei um ar e respondi:
"É o Beau, pode falar".
"Só um momento"... (pausa de 20 segundos)
"Alô, aqui é o Luiz, tudo bem senhor? Constatei alguma dúvida aqui nos papéis enviados para a contabilidade." (ah, era o contador; minhas pulsações voltaram ao normal)
"Seu Luiz, poderia avisar a secretária da outra vez se identificar? Assim, de susto em susto, ainda vais me perder como cliente. E eu que pensava em ir no coquetel do jubileu de ouro de seu escritório."

15:40  No hospital
Liguei para o hospital a saber como passava alguém de minha amizade. Resposta: o médico a enviou para casa, pois além de não querer se responsabilizar com os procedimentos da cirurgia, achava que o plano de saúde não cobria o tanto quanto ele queria ganhar. Que mão canguinha que ele tem, né.

13:50  A concórdia
Assim como eu, o povo criou uma estigma quanto aos advogados. Formou-se a imagem que a maioria deles trabalha para o sistema financeiro ou do outro lado a favor dos simples mortais. Voltei há pouco de um desses escritórios de cobrança travestidos de "consultoria jurídica" onde fui pagar uma parcela de uma ação revisional de um contrato. Nesta ação, o juiz homologou um acordo que reduziu o valor do contrato (restante a pagar) em 75%. Hoje me segredou um desses "nobres tribunos" que só 30% dos brasileiros ingressam com ações revisionais. O resto é quem patrocina os lucros dos bancos.

15:40  No correio
Será só porque é sexta feira 13 que não chegou minha encomenda? Tão esperada? Na agência dos correios "ninguém sabe, ninguém viu". Falei com o gerente Raimundo, um cearenses socado, muito meu amigo, um tipo nordestino dos poucos que se vê por aqui. Ele também me disse: "sei não, sei não". Fiquei contagiado. Saí da agência resmungando: "e o que sei eu? e o que sei eu"?

18:40  No ensaio
O maestro não tinha pior lugar para reunir a orquestra e ensaiar o musical "Evita". Levei de carro o Phil, e custamos a achar o endereço. Num teatro reduzido, não sei como ele conseguiu colocar tantos músicos, coristas, bailarinas, e cantores de todo tipo de voz. A primeira parte do ensaio ainda animava. Mas as constantes repetições das partes foi que me deu um fastio de só pensar num sofá macio e uma TV ligada. Chegamos agora 23:00. Loucos de fome. Se foi minha "baga-sexta". Se foi.


Comments:
Gostaria de ter todo esse bom humor ao acordar pela manhã...
Bom dia!
Beijos
Lucia
 
Vejo que foi mais um dia bão.... maravilha!

Sabe querido, se alguma não deu certo hoje é porque ainda não chegou a hora. Sem querer ser simplista, eu também tenho esperado... não por uma encomenda no correio, espero pelo prazer de ter o amor nos olhos, na pele... na alma.
Enquanto isso meu cotidiano também é de azaléias... Raimundos... não é fácil né Beau... e como nada é sempre tão bom, quando a meia furada coincide com o sapato velho... piora.

Gostei muito. Tem uma coisa que você disse aí e que me sensibilisou sobremaneira: "Ninguém acreditava que ela iria vingar"... linda imagem da crença na vida, por mais frágil ou insignificante que ela possa parecer.
Beijo no coraçao.
 
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