28 julho, 2006
Emoção frustrada
Nas raras vezes que o circo Le Soleil esteve em Porto Alegre, invariavelmente havia algo que me atrapalhava para poder assistí-lo. Já o tinha visto na televisão, em pequenos clips, e foi o suficiente para que me encantasse por ele. Além de haverem inovado o circo tadicional, este me envolvia com um certo mistério. O brilho dos saltimbancos, o olhar dos acrobatas e a expressão corporal do conjunto, ocultava um enigma que me conduzia muito além da simples imaginação. Afora os malabarismos perfeitos, o grupo se preocupava em apresentar roupas coloridas de agradavel combinação e um alegre e espontâneo sorriso atravéz de uma exuberante maquilagem. Causava um fascínio, como se no meio deles eu estivesse. Às vezes que os conseguia ver, ficava hipnotizado para deleite dos meus olhos. Enfim, os atores conseguiram criar o famoso vínculo que une o artista ao seu público. De repente! Não mais que de repente no horário nobre da TV, reaparece como a luz de um flash, o "meu" circo novamente. Posicionei melhor o sofá, e deixei os olhos se extasiarem com este sonho de consumo. Lindo! Fantástico! Só que, ao término do espetáculo, como num conto de bruxas, sutilmente vai surgindo num efeito Hi-tech, o logotipo de um Banco. "O circo? Somos iguais a ele. Somos tão bons, senão melhor que ele!" - induzia a propaganda. Para meu espanto, o banco fez uma oferta ao circo e comprou sua produção. Seduziu com seu poder econômico. Acabou estuprando o objeto do meu desejo. Para mim, Le Soleil não é o mesmo, nem mais meu, nem mais nosso. Ele agora é do vilão, que nem ao menos o trata com afeto, como nós nos dedicamos. Ele transformou o circo, numa armadilha para captar clientes. Agora, só pensa no lucro que o circo irá lhe trazer. Banalizaram o circo. Não irei mais vê-lo, meu desencanto foi total. Nem sei mais se os sorrisos dos atores serão os mesmo. Serão por certo, falsos sorrisos para a satisfação ao banco, que espertamente, o surrupiou de todos nós.
25 julho, 2006
Comportamento
Já dizia Pitágoras: "Ser feliz é nascer burro, viver ignorante e morrer de repente". Bem, eu não concordo muito com essas fatalidades, porém nas palavras literais do ditado existe algo de verdade. Tenho notado no mundo animal que, o que antecede o acasalamanto, são as demonstrações lúdicas, as quais aguçam os estímulos e deixam os casais em estado de êxtase. Porém, nas relações entre humanos, precede aquela encenação especial onde entram os joguinhos amorosos inteligentes. É como uma preliminar para ir se conduzindo ao prazer. Ambos relutam a ceder, porém deixam um caminho alternativo, sutil, cheio de mistérios a desvendar. Não existe nada melhor ao sermos pegos de surpresa. Então, quando há o descuido e acertamos na guarda, visualizamos aquele sorriso malicioso, e escutamos dizer: "Bobo. Como tu és bobo". Nunca a palavra "bobo" é dita com tamanha ternura. Penso que, nesse caso, "morrer" por ser burrinho, só é bom. E como é bom quando o ditado funciona!
21 julho, 2006
Dando força para um amigo
Olá! Chateado? De mal com a vida? Ânimo, tchê! Ânimo! Sei que tu não vais morrer sem um dia conseguir tocar o Rack 3. Falar nisso, como estão teus estudos de piano? Só não deixe aquela professora infernizar tua vida. Dá uma catimba nela e verás que tudo muda. Sabe, faz assim: Fica dois dias sem tomar Gardenal, daí o talento volta e aflora com naturalidade. Daí tu reincorpora o que realmente és. Vai que, ela até se apaixone. Mulher adora cara esquisito. Imagina que até de padre elas gostam. Então! Ânimo, meu caro! Nem tudo está perdido. Vendeu o carro e está a pé? Olha, escuta. "Quando parece que a guerra está perdida, quando não resta mais pedra sobre pedra, daí sim, entra a Infantaria pra salvar". Você sempre foi um Infante "pé-de-poeira", entende? Não é beleza? Viu, orgulhe-se disso. Comece tudo de novo. Você vai vencer. Ainda vais tocar o Rachmaninov nº 3 de olhos fechados. Isso não é pra qualquer um. Força. Você vai conseguir. Sei que vai. Anauê, cara.
P.S.: Por último. Quando o sexo começa a parecer normal, cuida que tem algo errado.
14 julho, 2006
Veranico de Julho
Sussuros incompreensíveis, o corpo agitado. Lençol amassado molhado pela transpiração. Talvez para dormir eu tenha me excedido na escolha do cobertor. Mesmo assim pergunto, por que só me lembro de sonhos trágicos? Será somente isto que o inconsciente contém? Sei, voltarei um dia a sonhar em technicolor, com aquele rio de variados tons de cores. Daí, sim, me sentirei melhor novamente. Melhor que em Passárgada. Bem melhor.
10 julho, 2006
Histórias. . .
Dia desses, se plantou na minha frente, e com voz tímida perguntou: "- Que é mesmo que o senhor faz?". Antes de responder, abri um terno sorriso, fiz um pequeno gesto teatral e finalmente, olhando nos seus olhos, brinquei: "- Sou um contador de histórias, minha querida. Histórias, entende? Eu conto histórias". Ela ruborizou surpeendida. Deu de costas e adentrou no portão de sua casa sumindo. Daí, dei conta que muitas pessoas, ao nos observarem, fazem um elo, unindo nossa imagem com alguma atividade de sua imaginação. Dessa vez, a menina, que mora no caminho que me leva ao mercado, desinibiu-se e apostou na sorte ao perguntar justamente à mim. Até hoje, ela não sabe que toda vez que abro o porta-luvas do carro, lembro dela porque lá, guardei meu chapéu de "velho-lobo-do-mar" adquirido na praia, numa dessas férias de verão. Pensei que, um dia, poderia me pedir para contar uma história. Então empunhando este chapéu, descreveria uma aventura mirabolante, de pescador em águas revoltas, fazendo de tudo para o barco retornar. E lá estaria esta linda menina a me esperar. À noite, junto ao travesseiro, questionei se isso teria sido a convivência com meu neto, ou se tem algo a ver com minha personalidade. Talvez, de tudo um pouco que somos, dificilmente seremos o que realmente desejaríamos ser.
06 julho, 2006
Táxis de L'Orange
Os táxis de Porto Alegre são da cor alaranjada. Quando você estiver necessitado de pegar um táxi, basta percorrer os olhos e logo irá identificará pela cor "laranja-cáqui-avermelhado". Sim, aquele cáqui mesmo, que você chupa, chupa e meleca a boca mas é gostoso pra caramba. A cor dos táxis é horrível. Só que nós daqui, já estamos acostumados. Lembro do tempo em que cada táxi tinha uma cor diferente. Daí veio uma alma iluminada e propôs padronizar todos. Deu no que deu. Alguns táxis tem a cor desbotada. Ficam parecendo cocô de nenê desarranjado, meio desmaiado com manchas de icterícia pelo corpo. Agora que eu vi a seleção da Holanda jogar usando aquela camiseta tangerina, já sei de onde copiaram a cor dos táxis daqui. Quem será esse cara iluminado que copiou a cor do Reino de lá? Tá... deixa os táxis pra lá.
Por falar nesse veículo de tanta importância, algum outro iluminado resolveu baixar uma portaria regulando os motoristas ao uso de calças compridas, meias e sapatos. Vão me perguntar "e eles dirigiam pelados?", "de pé-de-chão?". Não. Houve apenas um arremedo de pretender civilizá-los. Acreditam que não deu certo? Pois então. Continuam dirigindo de bermudas e de sandálias exibindo as pernas cobertas com cabelinhos de porco e a camisa aberta faz denotar a barriga sobre a cinta, escondendo a fivela. Ah, um fato importante: Extingüiu-se o cigarro. No entanto, o indefectível palito no canto da boca ainda é prática comum como marca registrada que bem os identificam.
Trio em ré menor, op. 49
Foi à tardinha, quando me convidaram para ver e ouvir o trio de Mendelssohn interpretado pelos alunos de artes da UFRGS (...piano, ...violino e o Phil no violoncelo). O "Sarau no Museu" durou uma hora, o suficiente para me deleitar com essa maravilhosa peça musical. No dia seguinte, ainda com aquelas melodias na cabeça, ao sair da garagem com meu carro, molto allegro agitato, deslumbrei um céu ensolarado, num dia próprio para dirigir andante com moto tranquilo, para logo depois pronto allegro, ser tomado de uma inesperada inspiração. Allegro assai appassionato, e feliz da vida, segui adiante, como se ainda estivesse absorvendo os quatro movimentos da música no ar.
Caras Estrelas, as pessoas precisam, as vezes, de um retiro espiritual. Já li biografias nas quais o silêncio, o estar consigo mesmo, faz a gente refletir melhor sobre tudo o que nos rodeia. Existem coisas que só a mim dizem respeito. Não chegam a ser tragédias porque as tragédias, os gregos e romanos já escreveram quase todas. Estou tentando lidar com aquelas que me dizem respeito. Aquelas que estão inseridas no quase. Cada um valoriza para mais ou para menos suas dúvidas, seus anseios, suas frustrações. Sobre as minhas, nada que tenham muita expressividade. Estive apenas, apenas fazendo uma média.
