29 novembro, 2004
O despertar do amor
Agora achei uma maneira natural de como dar lustro aos sapatos. Descobri que meu gato adora roçar sobre eles quando descalço e deixo-os no chão. Tem um prazer enorme de se deitar, esfregar, e em cima deles se aninhar. É possível essa paixão tão grande a ponto de trocar seu novelo de lã pelo amor aos meus sapatos?
Contagem regressiva
Ainda atrapalhado com este horário de verão, andei num sufoco para acertar os relógios. Passou o tempo que relógio, além de mostrar as horas, também tinha valor sentimental. O que possuo no painel do carro, pedi ajuda do relojoeiro para acertar apertando botões, pois tem lá uma coisa que não entendo. Os de casa, precisavam terminar a corda, senão eles podiam engripar. Os de pilha, de repente vi que estavam vazando e imediatamente as retirei, só que, passa dia, entra noite e eu não lembro de repô-las. Ao despertar, olho para o lado e vejo a pequena relíquia paraguaia atrasada em relação a altura do sol. No computador, o relógio "atômico" já se adiantou dois meses antes do anunciado. Com tanto relógio dando sopa, deixei de usar aquele autêntico suíço que parecia fazer meu pulso pesar mais de dez quilos. Fico pensando por que não inventaram uma máquina do tempo, com mostrador indicando quanto tempo falta para a noite de Natal.27 novembro, 2004

26 novembro, 2004
Inimigo oculto
Dizem que
em algum ponto do cosmos
(le silence eternel de ces espaces infinis m'effraie)
um pedaço negro de rocha
-do tamanho de uma cidade-
voa em nossa direção
perdido em meio a muitos milhares de asteróides
impelido pelas curvaturas do tempo
e do espaço
extraviado entre órbitas,
e campos magnéticos
voa
em nossa direção
e quaisquer que sejam os desvios
e estravios
de seu curso
deles resultará
matematicamente
a inevitável colisão
não se sabe se quarta-feira próxima
ou no ano quatro bilhões e cinqüenta e dois
da era cristã.
Ferreira Gullar
Nada se cria, nada se perde...
"Eu não queria ter iniciado esta empreitada. Eu desconfiava que não daria certo. Mesmo assim, estava alí. Eu não queria assinar o contrato sem ler antes, não havia tempo. Também, ninguém explica nada! O tempo urge (por que o tempo sempre urge?). Então as coisas são feitas nas coxas. Aquele senhor de gravata não era simpático. Pegou o papel e disse, assine aqui. Tinha voz de sorro-manso. Faltava elucidar detalhes técnicos. Então o outro me cutucou com o braço como quem diz, assina, assina. Eu tinha somente dezessete anos quando comprei meu primeiro carro em sociedade com um amigo. Um Gordini de terceira mão. Foram leves as prestações. Não durou o tempo de terminar de pagá-las! As vezes me ocorre, no quê mesmo foi trasformado e o que sobrou de meu carrinho? Num certo dia fiz uma visita à Siderúrgica Gerdau e olhando aquele enorme panelão com aço fervente, ferro e latão, eu compreendi onde ele foi parar: no outro lado da linha de produção, vi aparecerem rolos e rolos de arame liso e farpado. Prontos para serem vendidos por este mundão afora. Romanticamente me conformei pensando nos quantos lençois marcados de amor, seriam lavados, postos ao sol, suspensos nestes mesmos arames nos fundões das fazendas e quintais?
25 novembro, 2004
"Sapato novo e me devendo, hem?"
Ainda existem sapateiros? Aqueles que consertam calçados? Houve uma época que eles andavam numa baixa. Será que pensaram que era moda ser da Baixa do Sapateiro? Pois, no meu par de mocassin eu já sentia até o formato das pedrinhas ao pisar no areião do parque. Como dei um jeito nisso? Sola nova, claro. Ficou perfeito. Melhor que a encomenda. Sei que meu sapateiro não vai ler este post, mas virtualmente, iônicamente, catiônicamente, meu muito obrigado.
24 novembro, 2004
Recurso
De novo com os pés no chão, deixo-me levar pela rotina. As mesmas caras, os mesmo negócios os mesmos resmungos: "Meus dias, minhas horas passam e tenho a sensação de viver numa montanha russa. Impressionante como notícias boas e notícias ruins se intercalam em questão de minutos". Tá bom. Melhor trasnsformar este sobe e desce em algo pouco mais lúdico. Afinal, a vida não vai terminar amanhã. Quando essas coisas negativas me acontecem, faço um último desejo, sento-me à uma mesa bem posta e com capricho, homenageio a mim mesmo. Ou a nós mesmos? E como um agraciado, curto minha dignidade. Um bom disco de Nelson Freire ou pelo outro lado a companhia da Mercedes Sosa cantando "Gracias A La Vida", ajudam.
Reclamação estelares
Dormi mal esta noite. Sonhei muitos pesadelos. Fui tomado por vozes vindo do além, reclamações de todo tipo, jeito e feitio. O foco principal foi o último post no qual me referi que o que cintila no céu são meros objetos sem luz própria refletidos pelo sol. Desculpem-me, desculpem-me. As vezes me tomo de gafes e fico inundado de vegonha. Claro que sei: tudo que brilha no firmamento são minhas queridas estrelinhas com as quais me deleito em trocar impressões. E olhando daqui, as vezes me engano com alguns artefatos que os homens lançam na extratosfera - pequenos pontos de luz fraca, tipo lanterna elétrica de 1,5 Volt. Não dêem bola não. São iguais aqueles insetos, os pirilampos, que volta e meia despencam e se estatelam no chão.
Uma dessas estrelas, indignada por tê-la comparada a essas coisas terrenas, chegou até pedir para que eu retirasse o poeminha do Olavo Billac.
23 novembro, 2004
Conformismo
Ora, ora. Já tenho dito e repito: a imensidão do firmamento me emociona todas noites que vejo estrelas lá no céu. E como nos iludimos com facilidade! Assim como se pensava que o sol girava em torno da terra, certos pontos cintilantes nada mais são que bandos de satélites artificiais em revoada.
21 novembro, 2004
Teatro da vida
Recostado no espaldar da cama, olhava para a janela com a cortina entreaberta. Sabia de quem estava de fora não podia me ver sem roupas naquela posição. Fiquei pensando, quantas cortinas já abrigaram situações de intimidades. As vezes ao acaso, faço um certo exercício de imaginação em descobrir o que se esconde atrás deste recurso protetor. Por vezes alguém esquece a lâmpada do abajour acesa no fundo da peça, e sua própria sombra é projetada na cortina como se fosse uma tela improvisada. São infinitos os dramas do cotidiano, mas imagino as cenas de amor, de afeto, de ódio ou ciúme as mais representadas. Parece que, quem relacionou os sete pecados capitais, se inspirou nessas observações corriqueiras. Num desses passeios pelas calçadas, ao desviar minha vista para uma janela, percebi um pequeno afastar do tecido e uma figura de rosto apreensivo se desvendou. Pelo olhar distante, seria alguém arrependida por desprezar quem mais amava? Ou no franzir da testa a esperança para quem gostaria de ver chegar? Ao descobrir meus olhos, surpresa como num teatro, fez cair o pano, como dando, por encerrado o ato.
20 novembro, 2004
La Donna è Mobile
La donna è mobile
Qual piuma al vento
Muta d'accento
E di pensiero.
19 novembro, 2004
Efeitos do amendoim
Coisa boa que é. Melhor que usar aquela margarina. Dá sempre vontade de lambuzar pela parte de fora e com ajuda da língua ir lambendo aos pouquinhos, comendo aos pouquinhos. Hummmm. Deixar os lábios nacarados. (sentido figurado da Cassandra Rios). Uma delícia! KKKKKKKKK Pela primeira vez que saboriei creme de amendoim esfregado sobre o pão, gozei gostoso seu paladar. O Marlon, nunca teve essa idéia. Vou registrar direitos autorais.
18 novembro, 2004
Assunto masculino
Vão me chamar de tarado, mas desde que eu me conheço já tive muitas surpresas (gratas?) de ver mulher pelada em todo tipo de situação. As coxas da professora, quando sentava na minha frente cruzando as pernas naquela saia justa. Em camping, mulher agachada fazendo xixi. Aquela alemã que tomava banho de sol no quintal de casa e nunca havia se depilado. A doméstica que insistia secar o box do banheiro ainda em pêlo, como veio ao mundo. O sonambulismo da prima, no meio da noite me fazendo visita. Os banhos de rio, somente de cuecas e a vizinha de calcinha. Uma das tantas irmãs adotivas que deixava cair a toalha sempre que passava por mim. Aquela outra, que montou em mim roçando o que tinha de desejo. Ah, a parada sobre a ponte do rio Guaíba (risos). E já perdi a conta de situações exóticas casuais. Mas, sempre que vejo a figura de
16 novembro, 2004
Juntando coisas
Nem sabem quanto eu preciso de um herdeiro. Penso que ninguém vai dar bola para minha coleção de bottons que tanto tempo custei a juntar. Sempre tratei dela com carinho. Não são bottons comuns, eles falam por si só. Simbolizam períodos da República desde o princípio da propaganda eleitoral no país. Comecei a colecioná-los ainda quando criancinha ao ser "presenteado" com o primeiro botton no formato de uma vassourinha. Era na campanha para presidência de Jânio Quadros. Ele foi a esperança dos desfavorecidos e indignados, no sentido de varrer a corrupção no Brasil. Todos sabem como terminou. Depois vieram outros e em cada eleição, acrescentava mais peças e mais bottons. São símbolos emblemáticas que ostentados na lapela fazem o orgulho do detentor. Num rápido tour, posso citar: o símbolo dos Integralistas (nazistas à moda tupiniquim); a espada do Marechal Lott; a campanha das "Diretas Já"; o Trancredo, que não chegou a tomar posse e deu lugar ao Sarney (sic); o plebicito para retorno à monarquia (quê romântico!); Ulisses Guimarães que desapareceu com seu não tão eficaz meio de trasporte; O Collor fazendo frente aos marajás. Lula-lá e muitos outros que o antecederam. Protegidos, enrolados e trespassados sobre um veludo preto, alí eu guardo essas memórias, envoltas dentro de num mostruário de semi-jóias, sei lá porquê. Ninguém se deu conta que no período de vinte anos de ditadura, nenhum símbolo foi confeccionado, com excessão de um. Logo que foi dado o golpe militar, uma entidade chamada "Tradição Família e Propriedade" resolveu fazer uma campanha donativa de ouro para colocar em ordem as finanças do Brasil. Havia uma chamada como incentivo: "Seja patriota, dôe sua aliança, em troca de uma símbolo de latão". É um dos poucos que me faltam na coleção, a aliança de latão. Acho que, todos os que contribuíram, tomados por uma grande desilusão, deram sumiço nelas jogando-as no lixo. Tem certas coisas que não se explicam, a TFP como por encanto, também desapareceu.
14 novembro, 2004
Tommy
Entre espetáculos de teatro, cinema e música, fiquei profundamente impressionado com a ópera-rock "Tommy", a qual conta a história de um garoto surdo, mudo e cego que se liberta das limitações através de mesas de fliperama (pinball). Esta idéia foi evoluindo aos poucos na cabeça do guitarrista Pete Townshend. Ambientada nas décadas de 20 e 30, "Tommy" inicia-se quando um oficial inglês, o Capitão Walker, é dado como morto no mar durante a Primeira Guerra Mundial. Sua mulher, que ele deixara grávida em casa, dá à luz a um menino e, crendo-se viúva, arranja um amante. O capitão, três anos após o fim da guerra, finalmente consegue voltar para casa e, flagrando a esposa e seu amante na cama, o mata, sob o olhar assustado de seu filho. Com ameaças, ele o proíbe de contar a alguém o que aconteceu e o garoto fica, causado pelo choque, cego, surdo e mudo. Ano após ano, nada do que seus pais fazem, para seu desespero, consegue tirar o garoto do estupor em que se encontra. Tommy vai passando, nesse período, por toda a sorte de sofrimentos: é levado a uma prostituta que o droga, apanha repetidamente do primo e é abusado sexualmente pelo próprio tio. Seu único contato aparente com a realidade é na mesa de fliperama, até que um especialista percebe seu real problema, ao vê-lo fitando sua própria imagem num espelho. Ao quebrá-lo, ele liberta Tommy que, julgando-se um iluminado, cria uma nova seita e alcança popularidade por onde quer que pregue. Suas regras, porém, são duras demais e seus discípulos acabam se rebelando contra o Novo Messias. Musicalmente, "Tommy" é magistral. Teria a ver, algo deste porte com o profundo silêncio de alguém que frequente as "Lan Houses"?.
"Tommy" foi gravada em 8 pistas pelo The Who, em 1969, regravada com orquestra e um elenco de superstars do rock à época (Roger Daltrey, Steve Winwood, Ringo Starr, Maggie Bell, Rod Stewart e Richie Havens, entre outros).
Eleitores americanos
Vejo esta juventude toda entocada nessas "Lan Houses", casas que propiciam jogos de computador on line. Quem sou eu para criticar, mas penso que aquelas simulações eletrônicas de perigo, medo, ataque, e proteção não passam de uma ilusão e que só acontece num mundo virtual. A "galera" não sente orgulho, festa, e nem comemora quando uma dificuldade é superada. Quanto mais se dedicam a este "lazer" mais vai se tomando forma um mundo de efeitos virtuais. Penso, se alguém dalí num futuro próximo terá sucesso num empreendimento próprio, particular. Como rebanhos, são conduzidos por intermédio de uma máquina na qual já foi criado o tema em questão. Serão eles a grande massa de mão de obra frustrada que irá gritar para que os governos lhes dê uma solução de emprego? Parte dos americanos que votaram em Bush são produtos deste ambiente enganador por acreditarem no irreal que Hollywood martelou e os enfiou güela abaixo.
13 novembro, 2004
Poeminha instrutivo
Na primeira vez que saí de casa nos meus tenros 14 anos, minha mãe recomendou que eu fosse bom com as pessoas. Ser bom só por ser cristão não me refletia a realidade da vida. Custei a encontrar o equilíbrio por minha própria conta. Deixo aqui este poeminha do Mário Quintana. Para os ingênuos e incautos, que minha História não se repita.
Sê bom. Mas ao coração
Prudência e cautela ajunta.
Quem todo de mel se unta,
Os ursos o lamberão.
11 novembro, 2004
Travessia

Quando me encontrava quase alcançando o meio da ponte do rio Guaíba, ouvi soar a sirena e a luz amarela do semáforo começou a piscar, baixando a cancela e chamando a atenção dos motoristas. Em poucos segundos mudou para a cor vermelha dando sinal de parada obrigatória. Na minha frente, o grande bloco de concreto das duas pistas do vão móvel começou a se movimentar para o alto tracionado por centenas de poderosos cabos de aço, espremido entre quatro torres de sustentação. Ainda me deliciando com a música do rádio, pude ver por baixo do vão suspenso, senhor de si, um enorme navio deslizando silenciosamente pelo canal nas águas turvas do rio. Eu estava parado atrás da primeira fila de veículos e assistia, admirado, o lado prático desta colossal obra de engenharia. Quem faz com freqüência o trajeto entre Porto Alegre e Eldorado, sabe que o trabalho de içar e arriar a ponte, leva no mínimo 30 minutos. Pelo espelho retrovisor pude visualizar a grande fila se formando atrás de mim e pessoas descendo dos carros para observar melhor esta operação. Isso tudo, dava um ar de Festa da Nossa Senhora dos Navegantes, evento popular que transcorre todo o mês de Fevereiro no entôrno do local. Tão absorto eu estava, que de imediato não percebi o que ocorria dentro de uma caminhoneta estacionada bem ao meu lado. Não era possível observar ninguém no seu interior e nem de fora dela. Apenas o sacolejar do veículo intermitente. Pensei, estariam fazendo amor? Uns minutos depois, abre-se a porta lateral e salta de dentro um cavalheiro terminando de fechar o zíper da braguilha das calças. A moça, sua parceira, ainda torpe, recostada sobre o estofamento, pela porta entre-aberta me olhava com os olhos semicerrados expressando um sorriso enigmático como o dos lábios da Monalisa. Aparentemente, aproveitava o pouco tempo que restava do prazer. Tsc, tsc, fiquei pensando. Os impulsos do amor superam a razão. Sobrepõe-se a qualqur obra ou fenômeno mais grandioso da natureza. Enquanto alguns ficam a ver navios, a vida continua. Novamente, escutando o som da sirene, dei por conta estar encerrada a operação e me pus em marcha no fluxo dos outros carros. Daí então, me ensejou escrever estas linhas. Decidi dedicar este espaço ao prestígio de quem me lê, e tirar conclusões se seria possível fazer algo semelhante em tempo e momento certo. Quanto ao amor, em qualqur situação se vier acompanhado de gana, escondido ou não, ele por si só vale a pena. E como vale!
07 novembro, 2004
A invisível cicatriz
nascer
é ser novinho em folha
e já deixar cicatriz
viver
é cobrir os outros
de cicatrizes
e ser coberto
mas nem tudo
são cicatrizes
algumas incisões
definitivamente
não se fecham
por isso
aliás
morremos
Ruy Proença
05 novembro, 2004
Paisagem
Da última vez que viajei para minha terra natal, à medida que ia entrando na zona rural, me deliciava admirar os imensos trigais sendo colhidos por solitárias porém enormes e potentes máquinas. Eu as via ao longe se movimentarem, no entanto, não escutava o som. Era uma única paisagem a se perder no horizonte toda ela pintada de cor amarela, digamos, cor de trigo maduro pois não existe nada similar. A medida que lufadas de vento mexiam os cachos granados, parecia que a natureza passava sua escova transformando num imenso penteado ondulado. As vezes, também, dava o aspecto de um largo oceano de vagas douradas. Esta cena monocromática me fazia fechar os olhos e por alguns instantes o sono me dominava e não sabia se a paisagem era uma realidade ou parte do sonho que neste tema se fazia insistir. Tão envolvido fiquei, que desculpem, por alguns instantes, até me esqueci de vocês. Mas juro, pensei escrever sobre isso, como agora aqui editei.

