31 outubro, 2004
Alimento para a alma

Não vou falar muitos detalhes sobre a 50ª Feira do Livro que transcorre aqui em Porto Alegre senão vai tomar todo o espaço deste blog. Somente não posso deixar de dizer que é a maior feira da América ao ar livre, ocupando duas praças centrais, acolhida na sombra dos Jacarandás floridos sob o clima da primavera. Nesta edição, se esperam 2 milhões de visitantes. É uma grande festa cultural que se realiza no sul do Brasil. Cultural sim, pois não existe viajante que não observe com curiosidade, o interesse que vai das crianças até velhinhos em cadeira de rodas.
Então em vez de fazer turismo de compras em Ciudad del Leste no Paraguai. Matar a vontade de sexo no carnaval no Rio. Ócio e lazer sob o sol do nordeste. Frevo e uludum na Bahia, então eu convido para vir aqui, fazer um pouco de turismo cultural. Formar amizades frequentando os cafés também faz parte do contexto. No entorno, existem museus e espaços artísticos. À noite: restaurantes, cinema, teatro, e cositas más, com muita qualidade. Talvez não seja divulgado nos meios de comunicação mas seria omisso, não registrar este fato. Próximo evento será em janeiro com o Fórum Social Mundial.
30 outubro, 2004
O rio que nos leva
Nas minhas andanças pela vida, numa dessas muitas paradas no interior, tive de alugar uma casa em São Lourenço do Sul cidade margeada por um rio que vai desembocar logo alí na Lagoa dos Patos. A proprietária era uma viúva de hábitos refinados, que se apresentava sempre de chapéu e se vestia com um interessante toque de bom gosto. Ao ir providenciando na colocação dos móveis, percebi que em todos os quartos de dormir as tomadas de luz e os armários fixos, eram arrumados de tal modo que as camas, obrigatóriamente tinham de ficar com os pés para o poente dando um certo desconforto na disposição geral. Tive a oportunidade de questionar sobre isto no decorrer do tempo, quando aos poucos fui ficando mais próximo dela. Num certo dia falou de intimidades de sua família e me contou sobre o marido. Era uma pessoa lutadora. Iniciou uma atividade de plantador de arroz na qual teve um relativo sucesso dando sustento e economias para construir esta casa e outra nas terra onde exercia sua atividade rural. Terminadas estas obras, de repente suas vidas não tiveram mais a prosperidade inicial e progressivamente vieram as dívidas. Catástrofes de toda ordem começaram a aparecer resultando que o perdeu em decorrência da sua morte. Passado algum tempo, numa dessas conversas informais, ela ouviu de uma pessoa simples, quase analfabeta, a seguinte história: "Nunca durma com os pés voltados para onde o rio se vai, pois com ele, aos poucos, leva consigo a prosperidade. Também faz evaporar a esperança e conduz a alma para as mais recônditas profundezas de sua foz". Ouvindo isso, desvairadamente em prantos, iniciou a trocar a posição dos móveis. Mas já era tarde. Escutando esta história, fiquei pensativo se isso teria a ver com a visita que ladrões fizeram nesta minha casa. A única. Mesmo eu não sendo supersticioso, tratei logo de mudar as camas de lugar. Todas elas voltadas, principalmente, para a nascente.
28 outubro, 2004
Lilás et similitudines

26 outubro, 2004
Uma cor casual

Desde cedo, que estou tentando lembrar do meu sonho em cor lilás. Não foi muito agradável mas fico fazendo exercícios de memória do que teria sido. De repente, todos os objetos em tom lilás me chamam a atenção. Até me surpreendo de serem tão raros. Depois de pensar em voz alta, fiz este comentário aqui em casa e todos me olharam intrigados como se dissessem: "vamos mudar de assunto sim?". Banalidades. Até pode ser um assunto banal, mas parece que existe uma ligação da cor lilás com a despedida. O sol, ao entardecer no Guaíba, quando vai mergulhando no rio, invariavelmente faz com que o horizonte se transforme num enternecedor tom de lilás. Os lírios desta cor, são usados para serem jogados sobre o caixão quando no desfecho de alguém que se vai. O lenço branco acenado ao longe ao despedir-se, por certo tem bordadas as iniciais com linha lilás. Também nessa tonalidade eu visualizo a graça e leveza nos laçarotes enfeitando os cabelos ou a cintura das meninas que também já se foram depois que amadureci. A medida que vou descobrindo o quadro que deu origem ao meu sonho, a melancolia também vai se afastando de mim. Aos poucos vou acreditando que uma mulher com roupas íntimas em tom lilás, salpicadas com petit pois, irá me porporcionar (também se despedindo) um adeus à abstinência sexual.
24 outubro, 2004
O almoço de domingo
Uma vez que outra, sou convidado a participar no almoço de domingo na minha Comunidade Cristã Protestante. Para quem não conhece, foi fundada por Martin Luther, aquele alemão que reformou a igreja lá no século dezesseis. Daí todos que o seguiram foram chamados de protestantes. Ou Luteranos. Tá bom. Estes almoços sempre tem carater beneficiente. No entanto, o de hoje serviu para prestigiar o coral da igreja onde meu amigo Kreutzer assume a função de regente. Já de antemão previ que o cardápio seria basicamente Galeto com o acompanhamento de rotina. No entanto, se lá estivesse um italiano, faria-o ruborizar de vergonha comer frango assado, macarrão e polenta misturada com batatas ao vapor, bockwurst e chucrute. Tudo isso na maior naturalidade. Ah e não tinha vinho não, só cerveja - e refigerante, claro. Entre uma garfada e outra, aproveitei para atualizar meu alemão, uma vez que lá encontro sincronia nos assuntos com os meus outros semelhantes. E interessante, volto a confirmar, as anedotas contadas nessa língua são todas rebuscadas como num romance. Normalmente dramáticas, terminam num tom sarcástico o que nos faz revirar as entranhas de tanto riso pela sutileza e grandiosidade do humor. Ah, e para sobremesa, pudim de leite e de laranja, torta de chocolate com moranguinhos, salada de frutas com creme, fios de ovos e ambrosia. Deu pra mim, alto astral.
23 outubro, 2004
Torres

22 outubro, 2004
Cantata do café
Coisa estranha eu estar pedindo atenção, fazendo concorrência até com colibrí, este passarinho tão frágil. Coisa estranha eu implorar, como no Inferno de Dante, para não esquecerem de mim. Em matéria de afeto todos nós temos algo em comum quanto as nossas carências. Resolvi então deixar de pedir pateticamente socorro para qualquer coisa que minha emoção não possa administrar. Não teria sido melhor que ontem, eu ir ver a apresentação de um grupo de músicos que apresentaram o "Kaffeekantate" de J. S. Bach (1685-1767) no Instituto Goethe que fica nos altos do bairro Moinhos de Vento. A história se passa numa cafeteria, onde na época de Bach, mulheres não eram bem vistas tomando café. E lá estava a Lili, com uma xícara na mão, com pai querendo dissuadi-la em deixar deste vício e de troca oferecendo até um marido para ela casar. Feliz da vida com a insinuação do pai, logo começou a procurar entre os habitués do café, o moço mais garboso, terminando que descobriu nele um outro viciado que a aceitava, mesmo sabendo da sua dependência . Não chega a ser uma opereta, muito menos um musical. Era simplesmente uma cantata, com instrumentos de corda modelos antigos - violinos, violoncelo e contrabaixo, um cravo mais um alaúde. Quem cantava era uma Soprano, um Tenor e o pai, claro, com a voz Baixo. Tudo com encenação, eles mesmos sendo os atores. Mergulhei um pouco nas minhas origens alemãs. Um pouco no humor irônico-sarcástico-espirituoso que volta e meia ainda me fazem convivência real. Encantador.
21 outubro, 2004
A Primavera
Realmente hoje foi um dos mais bonitos dias do ano. Mesmo que eu tenha ficado toda a madrugada acordado esperando um chamado de alguém, nem bem tinha amanhecido, os sabiás já ensaiavam alguns cantos esperando o sol nascer. Percebi que seria um ótimo dia. As 04:30 finalmente saí pelas ruas da cidade, ainda escuras, em busca dessa pessoa que veio de ônibus do inteiror. Mas valeu a pena. Meu primeiro dia, realmente de primavera, ensejou ver até beija-flores procurando ainda as escassas flores que começam a desabrochar. Olhem, olhem sim o colibrí. Mas não se esqueçam de mim, tá?
20 outubro, 2004
Ser eficiente
O meu banco não fica longe daqui de casa. Muitas vezes vou a pé, como há pouco já fui e retornei. No trajeto, além de ficar contando ladrilhos da calçada, aproveito para olhar as vitrines ou qualquer coisa que me chame a atenção. Quem me fizer companhia, precisa se sujeitar às pausas que faço, porque elas se repetem com certa frequência. Hoje pela manhã, o clima nos surpreendeu com um intempestivo frio, resquício da estação que já se foi. E ao passar pela loja de aviamentos e roupas de langeries, notei que aquela manequim, já meio surrada, que ontem estava usando maiô, hoje vestia roupas pesadas de inverno como se tivesse a intenção de ir a Bariloche esquiar. Que eficiência de vendas que este turquinho tem. Num piscar de olhos, lá está aquela boneca grande adaptada ao tempo e à moda atual. Todos que possuem comércio deveriam fazer um estágio com o Salim. Ele sabe de tudo. Ele entende bem.
19 outubro, 2004
Estréia no TSP
Eram 21 horas quando na platéia as luzes se apagaram e dava-se início a mais uma noite de encantamento. Teatro lotado, ingressos esgotados. Os músicos, aos poucos adentravam no palco, e lá no meio deles se encontrava o Phil empunhando seu violoncelo. É o seu primeiro emprego formal numa orquestra. Fez concurso, haviam vários concorrentes, passou por todos e foi o melhor nos testes. Recém com dezessete anos e já com este porte seguro de enfrentar um público exigente. Estava bonito de smooking. Minha peocupação sempre foi com os sapatos. Sim, estavam bem engraxados, brilhantes. Conheço o filho que tenho: o sorriso da boca expressava muita alegria e satisfação. Sentou no seu lugar e a expressão mudou para a responsabilidade. Então desviei os olhos para o outro lado do palco e vi o Hubert, já veterano, terminando os últimos procedimentos no seu violino. As vezes direcionava um olhar ao irmão como a querer desejar as boas vindas transmitindo confiança. Quando chegou o maestro todos se levantaram respeitosamente, e me surpeendi de como o Phil havia crescido. Uma altura acima da média. Um belo garoto. Ao levantar a batuta, deram início à Sinfonia n° 40 de Mozart. Acordes e acordes se fizeram soar e aí então fiquei totalmente aliviado ao ouvir o naipe dos violoncelos e o Phil em total relaxamento na mais perfeita sintonia . Ótima performance. Ótimas evoluções. Tudo de acordo. Parabéns Phil. Parabéns meu garoto.
18 outubro, 2004
Theatro São Pedro

Alguma coisa de muito carinho, ou sei lá o quê, nós daqui de Porto Alegre possuímos com o Theatro São Pedro inaugurado em 1858. Um afeto maior ainda depois que esta casa foi restaurada transformando-se numa das melhores salas de espetáculos do Brasil.
17 outubro, 2004
Castle in the air

Estava eu filosofando sobre castelos no ar. Ainda sou do tempo que se pensava em castelos românticos como aquele que Walt Disney usou para a abertura de seus filmes, com várias torres, onde se encarceravam as princesas e rainhas justamente como castigo de algo que elas NÃO cometeram (será?). Os tempos mudaram. Com o advento do modernismo, descobriram novos tipos de castelos, tipo este, que não se encontra no alto das nuvens e sim em algum lugar no imaginário de quem o criou.
15 outubro, 2004
Pensando o futuro

13 outubro, 2004
De volta ao presente
É! Falar de passados já chega! Nem vou dizer do porquê da minha ausência. Coloquei muita coisa no seu devido lugar e outras me fugiram pelos dedos. Tive que ser forte para não sucumbir. Agora lembro e dou razão a Schubert quando escreveu "Winterreise". Uma dor só. Escutei uma vez recitarem esses Lieder e nunca mais quis ouvir. Uma dor só. Mesmo assim tenho novidades nos negócios, novidades acerca do banheiro. Amanhã fica pronto. Será mesmo? Ah! Novidades no amor... AMOR??? Bem, meu gatinho anda mais amoroso que nunca. E aqui? Vou tentar reiniciar tudo de novo, mesmo que até meu hospedeiro de imagens conseguiu dar sumiço nelas. Dia desses este servidor de blog também vai sair do ar e já sei, vou ficar pendurado pelo pincel. Mas enquanto existe vida, existe esperança. Quando retornei, eu vi e li uma constelação de comments, todos anonymous, mas já começo a identificar cada um pelo sotaque nas mensagens. Isso me conforta muito, muito. Por isso vou adiante. Mais uma vez: Adiante.
HOJE, 14-10-04 Com a ajuda de Deus e um pouquinho de sorte consegui recuperar algumas imagens que achava havia perdido. Digo e repito: Adiante, Beau, Adiante.

