30 outubro, 2004

 

O rio que nos leva

Nas minhas andanças pela vida, numa dessas muitas paradas no interior, tive de alugar uma casa em São Lourenço do Sul cidade margeada por um rio que vai desembocar logo alí na Lagoa dos Patos. A proprietária era uma viúva de hábitos refinados, que se apresentava sempre de chapéu e se vestia com um interessante toque de bom gosto. Ao ir providenciando na colocação dos móveis, percebi que em todos os quartos de dormir as tomadas de luz e os armários fixos, eram arrumados de tal modo que as camas, obrigatóriamente tinham de ficar com os pés para o poente dando um certo desconforto na disposição geral. Tive a oportunidade de questionar sobre isto no decorrer do tempo, quando aos poucos fui ficando mais próximo dela. Num certo dia falou de intimidades de sua família e me contou sobre o marido. Era uma pessoa lutadora. Iniciou uma atividade de plantador de arroz na qual teve um relativo sucesso dando sustento e economias para construir esta casa e outra nas terra onde exercia sua atividade rural. Terminadas estas obras, de repente suas vidas não tiveram mais a prosperidade inicial e progressivamente vieram as dívidas. Catástrofes de toda ordem começaram a aparecer resultando que o perdeu em decorrência da sua morte. Passado algum tempo, numa dessas conversas informais, ela ouviu de uma pessoa simples, quase analfabeta, a seguinte história: "Nunca durma com os pés voltados para onde o rio se vai, pois com ele, aos poucos, leva consigo a prosperidade. Também faz evaporar a esperança e conduz a alma para as mais recônditas profundezas de sua foz". Ouvindo isso, desvairadamente em prantos, iniciou a trocar a posição dos móveis. Mas já era tarde. Escutando esta história, fiquei pensativo se isso teria a ver com a visita que ladrões fizeram nesta minha casa. A única. Mesmo eu não sendo supersticioso, tratei logo de mudar as camas de lugar. Todas elas voltadas, principalmente, para a nascente.


Comments:
Durante parte de minha vida, a cabeceira de minha cama estava voltada para o nascente, e os pés apontavam para o poente. Não havia rio para levar meu destino e muito menos represá-lo. Não foi a melhor fase de minha vida, a qual não gosto de relembrar. Mas posso te dizer que agora, com a cabeceira para o norte e os pés apontando para o sul, sinto que o calor do sol lateral aquece meu despertar enquanto os pés espreguiçam para o sul, captando a fonte energética merecida, elemento básico para viver feliz. Sem assaltos e sem violência, com muita paz e tranqüilidade.
Bejus
 
Bô,
A milenar sabedoria chinesa, na verdade a cultura oriental em geral já sabe disso há milênios, procure pesquisar o assunto e garanto que vai encontrar grandes explicações.
Beijos
Lucia
 
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