30 março, 2005

 

Inimigo oculto



Interessante como a vida nos prega peças. Viver é um risco. Não sei bem quem disse isso mas bastou que eu tenha voltado das férias e já um mês depois, anunciam à todos que foram à Sta. Catarina em fevereiro e tomaram caldo de cana, fazer exame de sangue para constatar se contraíram a doença do Mal de Chagas causada pelo transmissor, o famigerado Barbeiro. Ao menos seria somente para quem bebeu caldo de cana. Não sabia que o barbeiro, o Sr. Triatoma - ai, que nojo! -, gostava também deste caldo (será que em Sevilha, os barbeiros também gostam disso?).  Não! Não dá para descrever a sensação à qual fui tomado de eu também estar infectado. A garapa é um dos líquidos mais prazerosos que apreciamos no verão. E agora, numa manhã bem cedo, despertei o Phil e o Gê para fazermos juntos os procedimentos no Posto de Saúde. Além que já tinhamos combinado, ao ouvirem meu chamado, escutei entre dentes. um pronunciado "merda" e um "bosta" de mau humor. Depois de muita insistência finalmente levantaram, e eu já sabia que iríamos enfrentar uma fila do SUS "quilométricamente extensa" nos perfilando com os demais brasileiros, todos nós, simples mortais. Pelo que aprendi sobre a ação do Tripanossoma cruzi, se estivéssemos doentes, já deveríamos ter sintomas da doença o que não ocorreu. Mas, via das dúvidas, estou de alma lavada por exercer minha obrigação, mesmo num tiroteio de palavrões despropositados. Amém.


23 março, 2005

 

Hobby

Finalmente choveu. Ou chove. Alguma coisa me diz que o outono realmente começou. Ontem, à tarde, fiz uma visita ao meu grupo de encadernação. Pensei que eu andava relapso mas só na próxima terça feira, mesmo, é que recomeçam as práticas e teorias de mexer com livros e papéis. Fiquei lá, por uns instantes, atirando conversa fora. Foi bom rever algumas pessoas. Faz lembrar do reencontro de coleguinhas de aula depois de um longo período de férias. Muitas histórias e muitos assuntos. Ah, e a tradicional merenda. Alguém trouxe uma "cuca" com sabor de cozinha alemã, acompanhada do chá de plantas nativas daqui mesmo do sul. Além do papo gostoso, o lanche estava muito bom.


19 março, 2005

 

Mudanças

Além do tempo já ter ensaiado alguma chuva, ainda me atordoa o calor deste verão. Hoje senti um primeiro sinal de que alguma coisa está mudando. Parece uma brisa quente vinda do norte a aquecer minha orelha direita, e um aragem fria vinda do sul esfriando a outra. Amanhã, as 09:30 inicia-se o outono e com isso mudam os humores, mudam as paisagens, mudam os hábitos e tudo começa a ficar novamente normal.


16 março, 2005

 

Quase

Poucos artigos me tocam tanto como este que o Fernando Veríssimo escreveu. Sem maiores comentários faço das palavras dele, as minhas.

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perderam por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono. Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna, ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até para ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, mas sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória e desperdiçar a oportunidade de merecer. Para erros há perdão, pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu....


11 março, 2005

 

Uma curta viagem

Desta vez eu não vi a placa indicativa do "Dr. Vendrúsculo". É porque desta vez subi a Serra de automóvel e não de ônibus como sempre faço com destino à Caxias do Sul. Interessante, muitas pessoas não gostam de viajar de ônibus mas foi justamente nele que pude constatar existir um certo "Dr. Vendrúsculo". Já sei o que estão pensando: "E daí meu caro Beau?". Quando não se está dirigindo, consegue-se apreciar melhor a paisagem. Detalhes: podemos ver os quintais com as roupas expostas nos varais. Construímos histórias tiradas de nossas próprias conclusões. Mas o mais bonito da viagem que apreciei, foram os 100 km de plátanos. A estrada é uma verdadeira alameda de plátanos. E como está se aproximando o outono, as folhas começam a mostrar sua cor amarelada, aquele amarelo pálido outonal. E os Ipês com as flores caídas no asfalto estendem-se como um verdadeiro tapete. Bem mereceu chamar este trecho de "A Rota Romântica". Maravilha mesmo.


08 março, 2005

 

De volta ao pago

Pago?   Sim!   Pago é o lugar onde a gente mora. É o rincão, é a querência. Enfim, é o local onde nos sentimos em casa com a rotina e os cheiros familiares. É onde cumprimentamos nossos comuns. Onde "o céu azul é mais azul, azul, como as noites do Rio Grande do Sul". Só que desta vez existe uma seca. Uma implacável seca. Todos já leram e ouviram sobre nossa seca. O rio Uruguai está tão baixo, que já se pode cruzar a pé à Argentina - para desespero dos fiscais da Receita Federal. Que eu me lembre, da última vez que choveu foi em dezembro. E pouco. Agora em março, me dou conta que realmente começou o ano. Talvez traga alguma inspiração maior para que eu possa continuar escrevendo. Vamos ver.


06 março, 2005

 


Não deve ser a primeira vez que isso acontece. Mas eu vi. Eu vi com meus próprios olhos. Foi quando acompanhei o Philip para adquirir seu novo violoncelo. Depois de uma peregrinação por vários luthiers e de haver testado vários instrumentos, finalmente o fato foi consumado. Isso me fez lembrar de quando ajudei seus outros dois irmãos. Primeiro foi o Hubert. Lembro o quanto penei para encontrar um bom violino. E com o Germano, então. Depois de comprar um piano que até faltavam teclas, decidi reformá-lo eliminando os cupins e substituindo por um novo teclado, o que não solucionou de maneira alguma o problema. Finalmente, ganhei a condição financeira de adquirir um piano novo que o acompanha até hoje na conclusão do curso de pós-graduação em técnicas pianísticas na UFRGS. Pois voltemos ao Phil. Nunca acreditei em milagres, mas agora, alguma coisa me diz que eles existem. Entre outras andanças, chegamos em Caieiras - interior de São Paulo - onde não nutríamos nenhuma fé. Eu estava sentado de frente a ele, observando, quando empunhou um violoncelo modelo "montagnana" pelo braço e o acolheu entre as pernas. Com a outra mão, decidido, passou o arco sobre as cordas e daí, como num passe de mágica, descobriu-se um som nunca antes revelado. O músico e o seu instrumento. O instrumento e seu músico. Foi como um amor à primeira vista. O Phil executou variações de Bach como se o próprio Bach fosse. E o violoncelo se deixou tocar sem se importar com as evoluções, soando notas límpidas e perfeitas. Depois insinuou um Beethoven e novamente converteu-se em Beethoven. Depois Villa-Lobos...  Era um ato de amor explícito. Eu, vendo aquilo, senti que o violoncelo encontrou seu dono, pois o Phil só parou de tocar a meu pedido uma vez que tínhamos de retornar. De volta ao hotel, ele o colocou sobre a cama e a iluminação do quarto aflorou o brilho da madeira. O que mais me alegrou foi sua pergunta: Não é uma maravilha, pai?


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