06 março, 2005

 


Não deve ser a primeira vez que isso acontece. Mas eu vi. Eu vi com meus próprios olhos. Foi quando acompanhei o Philip para adquirir seu novo violoncelo. Depois de uma peregrinação por vários luthiers e de haver testado vários instrumentos, finalmente o fato foi consumado. Isso me fez lembrar de quando ajudei seus outros dois irmãos. Primeiro foi o Hubert. Lembro o quanto penei para encontrar um bom violino. E com o Germano, então. Depois de comprar um piano que até faltavam teclas, decidi reformá-lo eliminando os cupins e substituindo por um novo teclado, o que não solucionou de maneira alguma o problema. Finalmente, ganhei a condição financeira de adquirir um piano novo que o acompanha até hoje na conclusão do curso de pós-graduação em técnicas pianísticas na UFRGS. Pois voltemos ao Phil. Nunca acreditei em milagres, mas agora, alguma coisa me diz que eles existem. Entre outras andanças, chegamos em Caieiras - interior de São Paulo - onde não nutríamos nenhuma fé. Eu estava sentado de frente a ele, observando, quando empunhou um violoncelo modelo "montagnana" pelo braço e o acolheu entre as pernas. Com a outra mão, decidido, passou o arco sobre as cordas e daí, como num passe de mágica, descobriu-se um som nunca antes revelado. O músico e o seu instrumento. O instrumento e seu músico. Foi como um amor à primeira vista. O Phil executou variações de Bach como se o próprio Bach fosse. E o violoncelo se deixou tocar sem se importar com as evoluções, soando notas límpidas e perfeitas. Depois insinuou um Beethoven e novamente converteu-se em Beethoven. Depois Villa-Lobos...  Era um ato de amor explícito. Eu, vendo aquilo, senti que o violoncelo encontrou seu dono, pois o Phil só parou de tocar a meu pedido uma vez que tínhamos de retornar. De volta ao hotel, ele o colocou sobre a cama e a iluminação do quarto aflorou o brilho da madeira. O que mais me alegrou foi sua pergunta: Não é uma maravilha, pai?


Comments:
Mais do que ver, mas sentir com o coração e a alma, esta a impressão deixada por teu Blog. Maravilhoso. Na verdade és um pai zeloso e orgulhoso dos filhos que tens. Mas aliado a este amor, acrescente-se a grande sensibilidade para perceber o que os olhos não vêem. Com certeza esta carga genética foi transmitida ao Beto, Gê e Phil, o trio musical que tens em casa.Parabéns.Bejus.
 
Postar um comentário



<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?