16 novembro, 2004
Juntando coisas
Nem sabem quanto eu preciso de um herdeiro. Penso que ninguém vai dar bola para minha coleção de bottons que tanto tempo custei a juntar. Sempre tratei dela com carinho. Não são bottons comuns, eles falam por si só. Simbolizam períodos da República desde o princípio da propaganda eleitoral no país. Comecei a colecioná-los ainda quando criancinha ao ser "presenteado" com o primeiro botton no formato de uma vassourinha. Era na campanha para presidência de Jânio Quadros. Ele foi a esperança dos desfavorecidos e indignados, no sentido de varrer a corrupção no Brasil. Todos sabem como terminou. Depois vieram outros e em cada eleição, acrescentava mais peças e mais bottons. São símbolos emblemáticas que ostentados na lapela fazem o orgulho do detentor. Num rápido tour, posso citar: o símbolo dos Integralistas (nazistas à moda tupiniquim); a espada do Marechal Lott; a campanha das "Diretas Já"; o Trancredo, que não chegou a tomar posse e deu lugar ao Sarney (sic); o plebicito para retorno à monarquia (quê romântico!); Ulisses Guimarães que desapareceu com seu não tão eficaz meio de trasporte; O Collor fazendo frente aos marajás. Lula-lá e muitos outros que o antecederam. Protegidos, enrolados e trespassados sobre um veludo preto, alí eu guardo essas memórias, envoltas dentro de num mostruário de semi-jóias, sei lá porquê. Ninguém se deu conta que no período de vinte anos de ditadura, nenhum símbolo foi confeccionado, com excessão de um. Logo que foi dado o golpe militar, uma entidade chamada "Tradição Família e Propriedade" resolveu fazer uma campanha donativa de ouro para colocar em ordem as finanças do Brasil. Havia uma chamada como incentivo: "Seja patriota, dôe sua aliança, em troca de uma símbolo de latão". É um dos poucos que me faltam na coleção, a aliança de latão. Acho que, todos os que contribuíram, tomados por uma grande desilusão, deram sumiço nelas jogando-as no lixo. Tem certas coisas que não se explicam, a TFP como por encanto, também desapareceu.

