11 novembro, 2004
Travessia

Quando me encontrava quase alcançando o meio da ponte do rio Guaíba, ouvi soar a sirena e a luz amarela do semáforo começou a piscar, baixando a cancela e chamando a atenção dos motoristas. Em poucos segundos mudou para a cor vermelha dando sinal de parada obrigatória. Na minha frente, o grande bloco de concreto das duas pistas do vão móvel começou a se movimentar para o alto tracionado por centenas de poderosos cabos de aço, espremido entre quatro torres de sustentação. Ainda me deliciando com a música do rádio, pude ver por baixo do vão suspenso, senhor de si, um enorme navio deslizando silenciosamente pelo canal nas águas turvas do rio. Eu estava parado atrás da primeira fila de veículos e assistia, admirado, o lado prático desta colossal obra de engenharia. Quem faz com freqüência o trajeto entre Porto Alegre e Eldorado, sabe que o trabalho de içar e arriar a ponte, leva no mínimo 30 minutos. Pelo espelho retrovisor pude visualizar a grande fila se formando atrás de mim e pessoas descendo dos carros para observar melhor esta operação. Isso tudo, dava um ar de Festa da Nossa Senhora dos Navegantes, evento popular que transcorre todo o mês de Fevereiro no entôrno do local. Tão absorto eu estava, que de imediato não percebi o que ocorria dentro de uma caminhoneta estacionada bem ao meu lado. Não era possível observar ninguém no seu interior e nem de fora dela. Apenas o sacolejar do veículo intermitente. Pensei, estariam fazendo amor? Uns minutos depois, abre-se a porta lateral e salta de dentro um cavalheiro terminando de fechar o zíper da braguilha das calças. A moça, sua parceira, ainda torpe, recostada sobre o estofamento, pela porta entre-aberta me olhava com os olhos semicerrados expressando um sorriso enigmático como o dos lábios da Monalisa. Aparentemente, aproveitava o pouco tempo que restava do prazer. Tsc, tsc, fiquei pensando. Os impulsos do amor superam a razão. Sobrepõe-se a qualqur obra ou fenômeno mais grandioso da natureza. Enquanto alguns ficam a ver navios, a vida continua. Novamente, escutando o som da sirene, dei por conta estar encerrada a operação e me pus em marcha no fluxo dos outros carros. Daí então, me ensejou escrever estas linhas. Decidi dedicar este espaço ao prestígio de quem me lê, e tirar conclusões se seria possível fazer algo semelhante em tempo e momento certo. Quanto ao amor, em qualqur situação se vier acompanhado de gana, escondido ou não, ele por si só vale a pena. E como vale!

