22 agosto, 2004
Enquanto aguardo notícias suas
. . . e pressentindo que procurava ao meu redor o que era seu, igual um bicho voraz, lembrei-me do último ataque, minutos antes, em que arrancou as minhas camadas de verniz e tocou a minha trêmula nudez.
Quieto, à medida que escutava o rumor da vida vindo de suas narinas, revi cena por cena o enredo de nossas mil e uma noites, cada uma com o seu aroma de perdas, cada uma com sua aura de conquistas, e os minutos todos que eram tão plenos quando a eles nos entregávamos, tangendo nossas diferenças, felizes por descobrir que aprender a viver é que era mesmo o viver.
Logo me lembrei, como o gosto de fome, dos tempos em que minha lenha acendia a sua fala, enquanto o linho de sua língua em meu falo me apagava os gritos de desejo -e refiz na memória a correnteza que eu era, me fluindo em sua boca, e a sede que você jorrava, me bebendo gota a gota, me sugando como o tempo suga um lenho ao relento, como a flor sorve o néctar da abelha, sem nenhum zumbido. . .
De João Anzanello Carrascoza. É autor do livro de contos "Duas Tardes", entre outros.

