12 setembro, 2006

 

Relembrando Elóy Kunde


Por vezes, a vida nos faz lembrar de pessoas queridas que já se foram... que nos deixaram. Esses dias, eu vi na TVE aquele apresentador Orlando Boldrin falar de alguém que já morreu, que lhe deu muita importância em certos momentos de sua vida. Fazendo graça, reclamou desse alguém, como se ele tivesse antecipado sua "viagem" e se fora antes do combinado. Isso fez me lembrar de um amigo de adolescência, que juntos, nas férias escolares de inverno, passávamos alguns dias na granja do seu avô. Ficávamos lá em retiro, bem aconselhados. Isso nos dava liberdade e confiança de praticarmos caça às perdizes na lavoura de trigo alí cultivada. Então, cedo pela manhã, já de café tomado, vestíamos roupas quentes, botas de cano alto, afivelávamos a cartucheira e com a espingarda em punho abríamos caminho por entre às plantas. Resultado disso, atrás de nós, o roçar das botas na geada fazia descortinar um caminho verde-escuro serpenteando no meio do imenso trigal. Já no fim da tarde, conseguida a quota de caça, ao retornar, nos esperava um caldeirão com água quente para o trabalho de despenar e esfolar, Daí limpar e colocar as perdizes numa gamela com suco de limão. À noite, a governanta preparava um gostoso jantar e à luz de lampião, nos era ensinado sobre as dádivas de Deus antes de desfrutarmos o prato delicioso com direito a histórias e gargalhadas, acompanhados de um cálice de vinho. Lembro dessas imagens como se fossem pinturas em quadros emoldurados por uma translúcida névoa de estação. Parece insinuar que meu amigo levou tudo isso consigo e hoje se encontra caçando perdizes no céu.

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