25 novembro, 2005
Expressar sim, mas com cautela
Nos tempos que cursava a quarta série do primário, minha escola convidou uma certa pessoa - que tinha os braços mutilados - para demonstrar aos alunos a força da vontade e o grau de superação do ser humano. Então como numa sessão de teatro, o homem se posicionou no chão sobre uma almofada e com os pés, retorcendo os dedos, riscou palitos de fósforos e acendeu um pequeno fogareiro. Do mesmo jeito, suspendeu sobre o fogo uma panela, frigindo ovos que ele mesmo antes havia quebrado. E assim, a cena continuou até o final que já era previsível: aquela figura tosca deglutiu grotescamente, toda sua obra de "arte culinária". Ao término, a professora nos deu como lição de casa, a descrição do que vimos. Sobre minha redação ela sensurou severamente: "Beau... no relato, você disse que viu o homem 'fritar seus ovos' e o correto é ter visto 'fritar os ovos que a galinha pôs'". Pronto! foi o suficiente para eu começar a compreender a simploriedade das frases soltas, dos chavões, das artimanhas, das dubialidades e das interpretações. Abaixo, algums exemplos que rotulam as expressões dos mal falantes:
Se alguém conseguiu me ler até aqui... outros exemplos serão bem vindos.- Dito pela primeira vez em programas de TV nas matinés de domingo, a "Tiazinha" do SBT e depois a BBB Ellen Roche respondiam sempre, "com certeza" ao entrevistador. Seu uso foi adotado, com certeza, pela maioria das loiras.
- Artifício verbal para dar consistência às desculpas esfarrapadas dos políticos em Brasília, o "veja bem" é muito usado por personalidades que gostam de dar às suas palavras um ar professoral.
- "no bulbo seco", é uma expressão usada por um radialista local ao informar sobre a temperatura ambiente: "está fazendo 30 graus, no bulboseco". No soar da frase os ouvidos entendem de forma dúbia, que determina um humor espirituoso, sutil. Ah, "bulbo seco" é o recipiente do termômetro onde se encontra a coluna de mercúrio, que é um elemento sólido e por isso seco.
- A Zélia, (lembram da Zélia Cardoso de Melo?) tinha um defeito. Um vício de origem. Quando lhe perguntavam sobre assuntos de Economia, abusava do "efetivamente" para discernir sobre coisa nenhuma. Pensava ela ser mais culta, mais erudita e mesmo assim, contratou a peso de ouro o Fernando Sabino para escrever sua biografia, "Zélia, Uma Paixão". Efetivamente... uma bosta!

