19 setembro, 2004
O jantar da comenda
Quando me dirijo pelos caminhos da serra gaúcha, à medida que me afasto das grandes aglomerações e a estrada inicia a subir, começo a sentir o cheiro da terra e da mata em seu estado natural. Então algo acontece dentro de mim. A vista se alonga no horizonte dando uma sensação de liberdade e que toda aquela beleza de mundo me pertence. O estado de ânimo se altera para melhor. Assim foi quando levei o Phil e mais duas colegas até a cidade de Canela nas dependências do Clube Serrano onde eles formaram um quarteto de cordas, ocasião que executaram músicas na entrega de comendas para pessoas ilustres da sociedade local.
Quando chegamos no local, no jardim defronte ao clube, criaram uma amostra iluminada dos 14 vestidos usados em todos os eventos anuais já transcorridos. Vinte metros de tapete vermelho se estendiam até a calçada para dar um ar solene a quem desse entrada na festa. E um rapaz robusto à lá body guard dava segurança para que tudo transcorresse sem maiores percalços. No saguão interno, os últimos agraciados com o título da Comenda do Cravo se posicionaram em duas colunas para recepcionar os convivas e personalidades dos mais diversos matizes. E ao lado, junto com esta cena os músicos empunhando os instrumentos, tocavam "New York, New York". Um chiquê só!
Tudo ia muito bem quando um tumulto na entrada agrupou pessoas numa peça ao lado. Falavam muito em "indignação", em "não quero mais" um "me leva embora". Até que os garçons entraram em cena e foram distribuindo grande quantidade de salgadinhos e bebidas em geral. Mal me passou que aquela figura era a Ângela Maria com seus boleros e samba-canções. E fazendo seu marketing, claro. Próximo a mim estava o decorador da festa e ele, no seu modo sapeca de dizer as coisas, falou: "Só falta a Ângela cantar Babalú". O Valmor é um profissional competente mesmo. Seus arranjos de flores são de primeiríssima. Até o tamanho do pavio das velas nas mesas era fruto de seus comentários em função do posicionamento para nenhum penteado ser consumido pelo fogo. Bem merecidas as champanhes que o garçom, sempre atento, cuidava para não lhe faltar.
Então vieram as personalidades, e entre elas o prefeito, o juiz, o comerciante bem sucedido. O financista, o cirurgião plástico, e mais e mais. Mas quem brilhou na festa, foi a miss Brasil com seus 1,82 m de altura, sem contar o salto alto, sendo a mais paparicada. No momento quando levantou e dirigiu-se ao banheiro, se ouviu aquele "Ohhh" e alguém falou que ela até foi fazer xixi de guaraná e cocô de quindim. Fiquei pensando, quantos não gostariam de apará-la e após, nunca mais lavar as mãos? Depois do jantar, quando a Ângela deu início ao "show" e meus ouvidos sentiram que não conseguiria de modo algum alcançar a altura da voz ao cantar Ave Maria no Morro, pegamos nossas coisas e fomos embora antes que ela nos contagiasse a um dia também querer ostentar uma medalha de alguma comenda qualquer da vida. Daí, descendo a serra, meu filho e as mocinhas ainda lembrando das cenas kitsch, por um certo trajeto tive de agüentar a gozação pois começaram a me chamar de Comendador. Putz. Só faltava essa!
Bejus
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