03 setembro, 2004

 

Mensagem aos "estranhos"

Sim, já me perguntaram se eu fiz eletroencefalograma. Havia uma época, se o cara era meio estranho então tinha de fazer um elétro. Foi o início da ciência física a serviço da medicina. Lembro que me achavam estranho. Tinha um comportamento estranho. Ainda adolescente, ficava por vezes desligado do mundo, mergulhado em questionamentos e miles de pensamentos. Então eu era estranho. Até, quando fiz meu primeiro rádio usando um rudimento de pedra de galena. Daí virei gênio (pudera). De tão fácil que era fazer esse rádio receptor percebi não ser nenhum gênio. Os outros que não eram normais. Eram medíocres. Medíocres demais. Mas não adiantou. Dia desses meu tio chegou no internato do colégio onde estudava e me levou para uma clínica a qual recém tinha adquirido uma máquina que desvendava todos os mistérios nervosos, cheia de fios com ventosas e essas foram coladas em pontos raspados de minha cabeça. Registrava bips e bips. Igual aqueles filmes onde os marcianos submetiam os terráqueos a estes enormes sacrifícios. Dado o veredito, entrei para a turma do Gardenal. Andava sonolento, tropeçando em qualquer tampinha de garrafa. Agora, eu me sentia estranho. Mas para eles, isso é que era normal.  Até chegar o dia onde escutei pelo rádio-galena para tomar muito cuidado com estes tais de psicotrópicos. Parei por minha própria conta de tomar estas coisas. Descobri então que eu era sócio do Clube dos Céticos desde criancinha. Me libertei. Vi a luz. Abracei a vida com tudo o que ela pode me dar.  Transcorridos um par de anos inventaram o aparelho de ultra som que podia ver o futuro bebê na barriga da mãe determinando o sexo com antecedência. Lembro de muitos pais que na certeza do resultado da máquina, acabaram comprando antes o enxoval do Gabriel e na maior surpresa, nascia a Gabriela. Estranho, não? Muito estranho.


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