31 agosto, 2004
Meu bairro
As ruas de meu bairro como tantas outras, são caminhos que levam e trazem pessoas no cotidiano da vida. No entanto, olhando bem, a paisagem e os elementos agregados a essas ruas retratam sutilmente o caráter e a personalidade de quem mora aí. Talvez eu também me identifique com elas. Vamos ver. Originalmente o bairro foi habitado por alemães, italianos e poloneses. O tipo físico é do mais diverso porém perfeitamente identificável. A maioria possui a pele clara e uma característica curiosa, os homens primam pela roupa bem passada e as mulheres com visual caprichado e cabelos bem tratados. As pessoas, enquanto se cruzarem, usam um código de aproximação: a cabeça se altiva, e o olhar como um scanner, vai digitalizando e definindo o quanto se querem cumprimentar. No momento ideal murmuram um "bom dia", um "olá", um leve sorriso, o que faz as duas partes sentirem civilizadadas suficientes para conviver como bons vizinhos. Se houver um diálogo, normalmente começa com, "o senhor mora aqui nas redondezas?". E assim vai se levando mesmo estas ações sendo previsíveis, mas eu gosto e me faz pensar quem foi mesmo que disse o homem ser um animal social?
Continuação 01.09.04 ...
Feliz sorte tiveram os moradores da rua Polônia onde os Jacarandás trespasssam a via pública fornando uma alameda com frondosas árvores. Neste início de primavera, as flores despencam em abundância caindo sobre as pedras do pavimento transformando tudo num tapete de cor lilás. Nas primeiras horas da manhã, travesseiros e cobertas descansam nas janelas dos prédios, na tentativa de receber os poucos raios de sol que o inverno ainda insiste em esconder. Um cheiro de café passado na hora permanece no ar. Alguns distribuidores de gás, de água e de verduras começam a circular e uma sensação de "lar doce lar" revigora a vontade de trabalhar.
Continuação 02.09.04 ...
O que mais chama a atenção no bairro é a diversidade de bares e restaurantes. Duvido que exista outro lugar com tamanha concentração. Cada um com sua especialidade e nomes sugestivos: galeterias: (Primo Pollastro); churrascarias (Boi que Berra); frutos do mar (Arrastão); rodízio de massas (Mamma Mia); carne de caça (Javalí na Brasa); sopa de miúdos (O Rei do Mocotó); cozinha alemã (Baumbach); casa de chopp (A Taberna); cozinha uruguaia (La Parrilla); casa de pasto (Do Schneider) e mais dezenas de outros, incontáveis. E tem o turco (o libanes) que todo dia coloca na porta de sua quitanda um enorme cartaz sempre com uma crítica ou elogio. A de hoje: "Não vote em ladrão, mesmo que ele faça"
Continuação 03.09.04 ...
Assim como existem os Koslowski, os Dal'Sotto e os Krämmer, outros como o serralheiro Catarino, fez de sua imaginação um automóvel no fundo do quintal. De peça em peça foi armando a estrutura colocando os pneus, o motor e finalmente pronto resolveu dar seu primeiro passeio. Corre a história que até hoje, mesmo depois de morto, nunca ninguém conseguiu botar o carro na rua por ele ter dimensões tão grandes que teriam de demolir metade da casa. Meu bairro também serviu de cenário para um projeto cinematográfico com o roteiro do filme "O Homem Que Copiava", ganhador de prêmio no Festival do Cinema em Gramado. Não caberia espaço neste blog para colocar tantas mais histórias pitorescas a serem contadas. Vez que outra, se eu me lembrar de mais uma irei relatar em outro post.
Foi como uma viajem, quando me dei conta tive de retornar.
Estopu adorando teu blog. Vou me encorajando para ver se abro um meu também
Abraços, Virgínea
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