07 agosto, 2004

 

da série: "Gostei mais" V

(Este texto me foi enviado por e-mail e publicado nas palavras originais do remetente. Se você tem algo autêntico para contar, peço que se encoraje e envie. Irei ler e interpretar. E se num impulso me permitir suspirar, irei publicá-lo. O importante é o conteúdo por mais singelo que seja e o estilo que retrata a alma do autor. É meu convite à editar. Liberte-se. Dê asas a sua imaginação. Tente voar...)

Roupas no varal combinam com quintal. Duvida? As casas simples deixam à mostra aos curiosos da rua, varais repletos de informações sobre pessoas e costumes, emprestam uma intimidade a quem os vê. Até o gato fica atraído pelo balançar do lençol ao vento, acompanha atentamente cada movimento com os olhos, tenta pegar, parece ter medo...

Tenho uma aquarela que é um quintal na neve, onde o varal estende panos coloridos em vermelho e azul bem fortes. Foi pintado pela Françoise e a mim presenteado no Natal de 2000. Sabe como ela faz estes trabalhos? Sempre que viaja lá pela França, ela tira fotos digitais de cenas domésticas, e reproduz as que mais gosta em aquarela... é boa nisso!

Por alguns anos acompanhei um curioso varal, único pela assiduidade e perfeição, pois todas às segundas-feiras ao chegar ao trabalho, já notava pela janela dos fundos o tal varal lá no piso térreo do outro prédio, montado como um estandarte, ostentando toda aquela parafernália com o orgulho de um destaque de escola de samba. Era cartesiano, havia exatidão na seqüência das cores, nas espécies e disposições das peças. Havia o grupo dos lençóis, das toalhas de banho, das toalhas de rosto, dos moletons, dos pijamas, dos shorts, camisetas das Pês das Êmes e das Gês, dos tapetes de algodão. Todas as meias eram aos pares uniformemente dispostos, e tudo numa graduação de cores dos mais escuros ao mais claros. Não podia me conte e chamava os amigos, ficávamos tecendo toda sorte de comentários, riamos muito... se for uma mulher é metódica ao extremo, rigorosa com a limpeza, organizada ao máximo, além de trabalhar para um bando de vagabundos que pareciam escravizá-la, rsrssrs... mas se for um homem, bem aí rolava um frison.. ahh...só pode ser gay... um homem não é tão detalhista com trabalhos deste tipo, e quanto mais olhávamos mais detalhes podíamos observar... inclusive na janela havia vasinhos de violetas... onde se podia observar o mesmo nível de detalhe, ou como dizíamos, o mesmo grau de frescura. Rsrsrsrrrss.

Ahhh os varais e os vendavais... um não existe sem o outro. A escala Beaufort (RSRSRSRSRSRS....) classifica o efeito natural que os ventos causam nas coisas...

O fragmento de texto abaixo não sei bem quem escreveu, apenas replico:

"Nas agruras da vida suburbana encontrei um porquê para minha existência. A calcinha da minha vizinha no varal. Ela não sabia. Mas todo dia quando ela saía para o trabalho e deixava as roupas no varal nos fundos de sua casa de madeira, eu, um desempregado, um inútil, um vagabundo, ficava ali, a observar sua calcinha. Um dia era branquinha, alvinha, límpida. No outro dia tinha desenhos com florzinhas e isso me deixava excitado. Um dia ela pendurou uma calcinha azul brilhante. Isso me deixou realmente puto. Calcinha azul! Brilhante! Saí de casa louco da vida..... .......... ".

L.P. - São Paulo, SP


Comments:
Não sei porque, mas já deve ter acontecido com todos uma vez, reparado em roupas de algum varal. Penso que não há varal que não conte uma história. Se não for verdadeira, ao menos aguça nossas fantasias. Haviam também varais que eram ocultos, pois mostravam fraldas de bebês que ainda não se tinha declarado existirem por motivos óbvios e as pessoas mais jovens nem podem imaginar a época em que não se comprava absorventes descartáveis em farmácia. Afora aquelas famosas toalhinhas laváveis, que denunciavam, naquela casa, aquela senhora ser ativa sexualmente. E quantos outros assuntos cada um não teria mais a dizer?
 
Beau,
Você já brincou de teatro com sombras de corpos projetadas sobre um lençol branco esticadinho no varal? Com uma lâmpada por trás pode-se ver os movimentos perfeitamente.
É fantasmagórico.... é delicioso.
 
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