24 junho, 2004

 

O caudilho que eu conheci

Lembrei-me que há poucos dias havia feito um comentário entre os meus, que quando o Brizola morrer, se encerraria o ciclo "trabalhista" no Rio Grande do Sul. Não vou me atrever a falar detalhes de sua carreira política. Nem caberia neste blog mesmo que usasse de muita síntese. No entanto, pela sua trajetória, acredito que ele seja o último dos últimos caudilhos da estirpe gaúcha. Pois com a tez preocupada em encontrar palavras de impacto, falava de um jeito franco, sincero e direto, o que o povo interpretou como 'tijolaços'. Mesmo assim expressava um sorriso largo quando gostava de algo. E assim possuía um carisma arrebatador.
Certa feita, eu ainda aluno do ginásio, barrei o Brizola na porta do teatro quando veio prestigiar um evento na minha escola. Me colocaram alí para não deixar entrar quem não possuia convites. Tomei guarda literalmente. Quando ele chegou, me postei na sua frente e com a mão aberta fiz o clássico gesto de coletor de ingressos porém sem sucesso, porque não o tinha. Fiquei posicionado impassível demonstrando toda minha resolução que sem o ingresso ele não entrava. Depois de alguns constrangimentos o diretor da escola veio em seu socorro. Percebendo de minha ingenuidade, sorriu largo, passou a mão sobre meus cabelos claros - de corte cadete - e disse que um dia eu seria um exemplar soldado - como realmente ocorreu, somente que com graduação de tenente.
Passados alguns anos, me deparei novamente com sua figura em 1964 no largo da prefeitura, um ou dois dias após o 31 de março, eu como um anônimo, a ouvir seus discursos inflamados clamando pela resistência contra o golpe militar. Assim foi, até a chegada do caminhão carregado dos PMs. Fosse hoje, certamente eu ganharia uma medalha de ouro nos mil metros rasos pois nunca imaginei que vendo baixar a pancadaria eu pudesse correr tão rápido pela Av. Voluntários afora. Bom, isso foi outra história.
Mesmo não concordando com tudo que fez, fiquei sim, emocionado com sua prematura morte. Ele era um caudilho romântico. Bem merecia um cortejo com carro fúnebre puxado por magníficos cavalos da nossa raça crioula, montados e guarnecidos por lanceiros vestidos de botas, bombachas e lenço colorado; chapéu tapeado na frente e no queixo o barbicacho bem ao estilo dos gaúchos. Seria uma visão épica de uma existência que aí se encerra.
Vai ser sepultado em São Borja, cidade originada de um dos 7 povos das reduções jesuíticas, um território que foi resgatado da Espanha quando do Tratado de Sto. Idelfonso (1777). pelo qual Portugal acertou entregar à Espanha a Colônia do Sacramento no Uruguai em troca da faixa de terra das Missões que pertencia à Argentina. Pertinho dalí ficava uma vila, onde tudo o que "Aconteceu Em Antares" o Érico Veríssimo relatou. Também perto de onde eu nasci. O Prestes, com sua coluna, também iniciou sua marcha por lá. Pura HISTÓRIA com nossas fronteiras ainda vivas. Por essas e outras o Rio Grande está coalhado de quartéis, uma concentração nunca vista de tantas unidades militares juntas.
Então, se não paro de escrever agora, não tem blog que agüente. O último dos caudilhos. Isto é o que o Brizola foi. Assim como ele, o caráter gaúcho tem raízes nestas lutas de glórias. São cultivadas nos da mais tenra idade e mantidas vivas nos CTGs.


Comments:
O NYT do domingo traz a foto do Lula e o título em sua revista: “O último herói esquerdista da América Latina”... queira Deus que isso faça jus aos fatos, vamos aguardar a História.

Ahh Beau... políticos como Brizola, Ulisses.... jamais voltaremos a ter... saudades Beau, saudades daquele Brasil!!!!! Como brasileira senti-me um pouco roubada com a morte de Brizola, empobrecemos em idéias e ideais. Quem hoje ainda faz este milagre de ao morrer parecer mais vivo do que antes?
Fica aqui registrada uma faixa preta que não consigo editar.
 
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