04 maio, 2004
Um curto ato
Já havia percebido em outros encontros, o interesse que a Suzana tinha em nós. Dia desses eu a vi sentada no sofá da sala conversando alegremente com meus filhos. Estava tão distraída que nem notou eu chegar e sentar na roda para ser gentil com sua visita. No decorrer da conversa, dizia ela que a música de Amadeus Mozart era a razão de sua existência e ia citando infindáveis passagens de solos, movimentos orquestrais, árias de óperas e invariavelmente o Réquiem que deixou inacabado. Falava com uma dramaticidade, que contrastava com sua beleza jovem de 19 anos. Exercitava posturas de maneira a nos encantar com a importância que dava a este gênio da música. Num certo momento, já cansado, me retirei e somente no outro dia soube ter ela dormido em nossa casa e bem cedo, sem dizer nada, já havia saído para onde, ninguém sabia mesmo. No café da manhã, fiz um comentário de sua fixação em cima dum mesmo tema e notei algo que a incomodava a ponto de lhe deixar aflita enquanto não dissecasse os assuntos dum todo. Soube mais tarde do seu sofrimento de não poder controlar a si mesma. Quanto mais tentava se explicar mais sentia-se vulnerável. Passados oito anos, eu a vi uma vez só, foi na saída de um teatro. Ouvi algum comentário, que ela conflitava com sua própria intolerância. Me auto questinava: quem de nós pode julgar a si mesmo? Quem mede nosso comportamento como grau de normalidade? Soube semana passada que ela deu por encerrada sua vida. Uma bela moça. Teria uma bela vida. O que mesmo teria lhe dado causa a praticar suicídio? Talvez fosse Mozart. Talvez.

