31 março, 2004
Uma experiência
Onde estava eu mesmo, no dia 31 de março de 1964? "Num ninho de comunistas". Assim eram chamadas as oficina do jornal "Última Hora" que ficava próximo do meu quarto de pensão e eu acompanhava passo a passo as notícias da tentativa de mais um golpe militar. Na frente, na calçada, se aglomerava o povo e eu inclusive. Havia um intelectual, que em cima de uma caixa de madeira na ponta dos pés, gesticulava muito e discursava. Usando uma gravata vermelha, camisa de mangas arregaçadas exibia seu revólver Shmith-Wesson "cabo de madrepérola". Um novo Lênin. Uma figura épica. Uns quantos outros bradavam palavras de ordem. Eu não sabia, mas presenciava os últimos extertores da democracia. Para mim, havia algo de atemorizador naquilo tudo, porém a cena me emocionou pela grandiosidade do fato e pela excitante experiência de estar convivendo com a História. Na medida que transcorriam os fatos, já tinha certeza que mais uma revolução estava por vir. O comando do exército ainda se encontrava indeciso sobre qual lado iria ficar. Minha ingenuidade de moço até fez pensar que aquela figura em cima da caixa poderia ser meu futuro lider. Deu no que deu. Elegeu-se vereador e até governador do Estado. Até hoje, penso que não voltamos ao pleno direito de expressão. Soube hoje, que um grupo de alunos fez uma manifestação contra o movimento grevista dos professores. Pode ser que um dia, um deles irá se destacar e irá usar uma gravata vermelha também. Viu, novamente aos poucos estamos chegando lá.
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