21 março, 2004

 

Meu herói

Ao passar o tempo, dos muitos heróis que desfilaram em nossas vidas, nem sempre sabemos porque viraram heróis. Caso típico aconteceu com a recruta Jessica Lynch que foi 'resgatada' no Iraque e ovacionada como heroína. Tanto a mídia fez, que ela pediu para ser esquecida. Temos verdadeiros e falsos heróis e cada um possui o seu predileto. Então vou contar para vocês do meu herói, aquele meu escolhido:  Chama-se "O pracinha Weber". Ele lutou na FEB na Itália, juntamente com meu tio que ainda voltou vivo. Antes porém vou falar sobre meu tio. Ouvi minha avó relatar, que um dia ainda de madrugada, chegou um caminhão do exército vindo da cidade. Bateram na porta da casa, chamaram pelo praça Henrique (o Heinrich), 18 anos, e o levaram desaparecendo na névoa fresca de uma manhã. Depois, finda a guerra,  retornou.  O Marechal Dutra facilitou a aquisição de um caminhão Volvo no qual iniciou a ganhar o seu sustento. Minha convivência com ele, lembro, era de visitas esporádicas que fazíamos à sua casa, à sua mulher e filha. Eu ainda era novinho quando certa vez, espantado, presenciei uma cena vinda do quintal. Era ele, querendo brigar com o vizinho simplesmente pelo fato de que ouvia o choro do bebê recém nascido. Não podia escutar uma criança chorar; o estouro de fogos de artifício o amedrontava e o simples som de uma harmônica ensejava lhe verter lágrimas. Isso e muito mais o que não compreendíamos, era exatamente o inferno dele. Tinha preferência de dormir no chão, sobre as tábuas do assoalho, como se ainda estivesse acantonado. Um dia, ouvi-o balbuciar o nome do Weber. Só isso, o nome. Mas por que se lembrou do seu 'kamerad' e amigo Weber? Porque foram colegas e assim como ele, o Weber não desertou, não fugiu.  Não o levaram acorrentado.  Apenas assumiu sua função do que teria de ser feito: lutar para salvar o mundo da catástrofe do nazismo. E era ele o escolhido. E assim foi e fez, como meu tio. Só que o Weber não teve a mesma sorte. Morreu lutando. Derramou seu sangue, para sem saber, me proporcionar aquela feliz infância que eu estava vivendo. Que grato que sou.  Isso que chamo de herói!  Alguém lutar e morrer por você.  Um anônimo fez este serviço. E com que competência ajudou a tomar o Monte Castelo e tudo o mais. Se Hemingway o tivesse conhecido, talvez para ele tivesse dedicado o 'dobrar dos sinos'. Quando eu ainda frequentava o curso primário, no caminho da escola de mochila nas costas, passando pela praça principal, a minha atenção era desviada para aquela pequena rocha, cravada ao lado de um cipreste, onde estava estampada sua figura desproporcional de estatura baixa em posição de sentido como a espreitar os transeuntes. Uma homenagem minúscula, como minúscula era a lembrança dos que ele tinha salvo. Um dia, no entanto, ganhou o nome de uma avenida: Expedicionário Weber. quatro quilômetros bem merecidos. Hoje, minha cidade natal é mais lembrada pelo goleiro Taffarel ou pela Xuxa, também nascidos lá. Então ergueram a "Casa da Xuxa". Ela, a heroína fashion da mídia. O Weber, uma realidade dura, concreta, permanente. Este sim, é um verdadeiro herói! Ainda vai acontecer alguém despertar e dar a merecida homenagem. Inaugurar um grandioso panteão. Dedicar uma data solene, com salvas de canhão. Uma parada civil em honra e agradecimento para esta pequena figura, que num dia de outono o levaram e foi desaparecendo, desaparecendo, na névoa fresca de uma manhã.


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