01 março, 2004
Da série: "Gostei mais" (I)
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"Desde primeiro de dezembro que não chove. Estamos na estação das águas e a secura devasta o verde da vista. Crédo Circe, que desolação! Não me lembro que no ano passado tenha sido assim. 'Verdes trigos' de Van Gogh não é igual?
-Ah Zé sei lá! Você e este Van Gogh, já não chega o fulvo que forra o chão? Faça-me o favor! Você não consegue ver o vermelho do arrebol? Pra mim o mais chato é esta sua monotonia, você é broxante. Vou dormir. Boa noite.
-Boa noite, eu vou logo mais. Quero ver quem vai ser entrevistado no Jô, depois eu vou.
-Vê se não dorme com a tv ligada e as luzes acesas!
Caminhou para o quarto, o mesmo quarto tão repetido, tão árido. Deitou-se num gesto único. Viu-se num retrato em branco e preto no criado-mudo sob a luz do abajour . Será que antes não tinha cor, sempre fora em preto e branco? Pensou: o que poderia fazer para dormir? Foi pensando... pensando... e assustou com o piso frio da cozinha. Era tudo vermelho, muito, muito vermelho! Tanto sangue que nada podia ser identificado naquela massa esponjosa fétida, naquela visonha. Cutucou para saber se ainda mexia, nada... engraçado que parecia ter adquirido feições de anjo. Se ela fumasse seria um bom momento para curtir um cigarro, afinal, a paz interior era infinita."

