30 março, 2004
Coisas daqui
Não faz muito. Nem dez anos. Para saber as condições do tempo, ouvia-se de tudo, entre mil crenças, muitas mentiras, asneiras de todo tamanho. Por ser apenas uma "previsão", podia-se dizer qualquer bobagem, como: "Tem chance de chover, 50% sim, 50% não". Aqui no ~Rio Grande~ certas pessoas empostavam a voz para dizer que 'escutaram' na rádio El Espectador do Uruguai, a previsão do tempo fornecida pelo Instituto Antares (era essa a estrela que vagueia por aqui). Não conheço ninguém que foi lá, que viu ou que confirmou a existência física deste Insituto. Mas se faziam importantes em divulgar porque naquela época, deter o conhecimento já era uma forma de ostentar status ou de demonstrar poder. Igual como o Antares, que errava feio, o Instituto de Meteorologia local também falhava. Não tinha credibilidade dos ouvintes além que, nem dava a mínima pela gozação. Dia desses ocorreu uma enorme seca. Era tão seco que até romarias fizeram aos santos suplicando por chuva. E então, apareceu uma nova figura. Descobriram em Passo Fundo um agricultor que fazia suas previsões observando os hábitos das formigas. Passava o dia sentado à margem de um formigueiro examinando o trabalho delas. Ora falava sobre o 'suor' que desprendiam na escavação, ora pelo esforço no cortar e carregar as folhas para dentro dele. Comentava o movimento dos "carreiros". Se estavam todas andando em fila o tempo seria bom. Se se tinha instalado o pânico era tempestade. Das brabas. Queria saber do tempo? "Pergunte ao homem das formigas". Por estes e outros fatos, ele sabia se ia chover ou fazer sol. De outra feita, surgiu uma tal de "Fundação Cacique Cobra Coral" a qual se utilizava de meios exóticos e mediúnicos. Eu ficava imaginando vários índios dançando frenéticamente na roda de uma fogueira adorando uma serpente (a coral), que ia se contorcendo lânguidamente. Uma índia virgem ficava a admirá-la até entrar em transe. E era ela quem determinava se precisava botar a capa de chuva, ou não. E assim funcionavam as coisas. Já que as pessoas leigas receitavam chás e remédios, por que também não se podia fazer previsões meteorológicas? "Nuvem com rabo de galo, é prenúncio de seca"; "geada no barro é água no tarro"; "cerração baixa é sol que racha" e outros mais. Haviam rezas também: "São Bento, São Bento, venha água e não o vento" Então era bom quando de surpresa caia uma chuva, uma invernada inesperada, um período estival. Cada estação do ano nos surpreendia com fatos diferentes. Era a força da natureza que surgia como a certeza de uma fatalidade. E entre perguntas e respostas acompanhavam pitadas místicas de interpretações. Era o imprevisível! Bom. Tudo bem. Assim foi. Até que um dia, apareceu "O cara". Seu nome é Hackbardt. O cara acerta todas. Não erra uma. Vejo na TV o reporteiro ler seu texto. Tecnicamente correto. Politiamente correto. Perfeito! Começou acertando e continua acertando. De repente me deu um contra, e percebi que aquela forma antiga, lúdica de descrever o tempo, era quase um conto infantil. Aquela crença atroz do castigo – quero que um raio caia sobre mim - a ilusão do "me engana que eu gosto" deixaram de existir. Os curandeiros ficaram desempregados. Os pregadores do apocalipse não existem mais. Nosso mundo a exigir qualidade. Tudo se transformou numa palavra só: competência.
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