28 fevereiro, 2004
O túnel
Quando ainda criança, sempre tive a curiosidade de me aventurar à emoção de atravessar um túnel.
Havia no meu imaginário "Vencer a Montanha", poder ultrapassá-la usando os artifícios da inteligência.
Seria a glória!
O tempo encarregou em me dar esta oportunidade na chegada dos anos 70 no chamado "milagre brasileiro". Enchi-me de orgulho. Finalmente Porto Alegre também ganharia o status de cidade que possui um túnel.
Acompanhei a construção à distância.
Curioso!
Em vez de iniciarem a perfuração do túnel, presenciei uma enorme escavação. Removeram a terra de cima, implodiram a rocha de baixo o que fez transformar o local numa grande trincheira.
Então construíram uma caixa de concreto e depois entulharam tudo novamente frustrando minhas expectativas originais. Juro que se fosse eu, o engenheiro, os amigos me olhariam com aquele tradicional "tsc", "tsc" de desdém.
E assim surgiu o túnel com secção quadrada em vez daquilo que eu imaginara bonito e esbelto com o teto de abóbadas ovais.
Ali aprendi que a menor distância entre dois pontos nem sempre é uma linha reta.
No seu interior possui curvas com vias sinuosas exigindo a máxima atenção dos motoristas para que os carros não se toquem uns aos outros e toda esta obra desemboca bem na frente da Faculdade de Engenharia, instituição que é um dos meus orgulhos.
Pensei: é o modernismo.
E o tempo foi se passando.
Hoje, toda vez que por lá transito sinto uma angústia, e assim como eu, todos motoristas pisam no acelerador em alucinante carreira para chegar de uma vez ao outro lado, visto que, em tempos de estiagem, pingos d´água caem sob o teto dos carros e quando chove, despencam pequenas cachoeiras o que dá a impressão que logo, logo, tudo vai desabar.
O som estridente dos canos de descarga; a fuligem nas paredes; a ausência de iluminação. Pura escuridão.
Meu túnel se transformou numa caverna. Ótimo local para fazer um filme de terror.
Demorei um pouco mas aprendi na prática, literalmente, o que sempre queriam dizer com "A luz no fim do túnel".
E eu me pergunto, não podiam dedicar ao local o nome de algum militar, General, quando o construíram, em vez do dogma da concepção da Virgem Maria para aquele buraco imundo e feio?
No final, lhe deram o nome de Túnel da Conceição.
Mas nem tudo está perdido.
Minha cidade é linda.
E como disse o Érico Veríssimo: Tem ruas, parques e jardins. Tem até uma Orquestra Sinfônica.
Isso ele disse, antes de iniciarem sua construção.
(BeauGeste)

